Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2018

Para evitar um choque no orçamento

Aumento do valor da energia elétrica exige que síndicos planejem maneiras para economizar, como tecnologias mais modernas e fontes alternativas Continue lendo

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Gabriel Menezes

A escassez de chuvas e, consequentemente, a drástica queda no nível de água dos reservatórios das hidrelétricas do país vem deixando o valor da conta de luz ainda mais salgado durante este ano. Para os condomínios – onde a energia elétrica corresponde, em média, a 5% de todos os gastos mensais – este aumento pode ser um fator determinante para manter ou não a saúde financeira em dia, principalmente para aqueles que possuem poucas margens para custos extras inesperados. Sendo assim, cabe ao síndico buscar maneiras para amenizar esse aumento, seja com campanhas educativas para reduzir o consumo e evitar o desperdício, equipamentos mais modernos ou fontes alternativas de geração de eletricidade.

Em busca de alternativas

Os moradores do condomínio Canto Livre, no Leblon – administrado pela APSA -, veem o gasto com energia elétrica subir de 7% para cerca de 9% das despesas mensais em tempos de bandeira vermelha (período em que as distribuidoras cobram um percentual extra acima do que foi consumido no mês).  Por conta disso, a síndica, Karín Botelho, vem buscando já há algum tempo maneiras para amenizar essas cifras. “Para diminuir o gasto com energia elétrica, iniciamos uma série de medidas há cerca de dois anos. Uma delas foi trocar todas as lâmpadas das áreas comuns e compartimentos pela tecnologia de Led, que é muito mais econômica e duradoura. Além disso, implantamos sensores de presença nos locais onde não existe a necessidade de iluminação permanente, como, por exemplo, os corredores internos”, explica a síndica do condomínio, que possui 70 unidades habitacionais.

Ela estima que as medidas já geraram uma economia de cerca de 70% no consumo apenas com iluminação. “Gostaríamos de implantar, também, painéis de energia solar, mas, considero que essa ainda é uma tecnologia com um valor caro no Brasil, quando comparado com outros países”, destaca Karín.

O gasto com energia também é uma preocupação no condomínio Chateau Borghese et Royal, na Tijuca. Eleita em 2015 para o cargo de síndica, a engenheira civil Mônica Romariz é perita judicial e já atuou em diversos processos envolvendo condomínios. Por isso mesmo, conhece o assunto profundamente e percebeu que havia muito o que ser feito para economizar. “Num primeiro momento, substituímos as lâmpadas eletrônicas das duas portarias por lâmpadas de Led. Com o tempo, ampliamos essas trocas para as outras áreas comuns, atingindo um total de 250 lâmpadas eletrônicas substituídas por lâmpadas Led de 9w e oito refletores de 30w. Tudo em, aproximadamente, dois anos. Ainda faltam as luzes das escadas, mas, como temos sensores de presença e elas são pouco usadas, não é uma prioridade, pois o retorno do investimento neste caso é muito baixo. Também pretendo instalar sensores de presença nas três garagens”, destaca Mônica.

Ela ressalta que outra medida importante foi a troca dos sensores de presença nos corredores e escadas, que já estavam apresentando problemas devido ao tempo de uso. “Também faremos uma campanha para o uso consciente dos elevadores. Com a pressa que vivemos hoje, ao chegarmos em casa, acabamos por apertar os dois elevadores ao mesmo tempo, e isso gera um grande desperdício de energia elétrica”, frisa a síndica.

Energia solar é um investimento sustentável

A energia solar é a fonte alternativa de geração de eletricidade mais comum nos dias de hoje e vem se popularizando e tornando-se mais acessível com o passar dos anos. “A pessoa precisa ter em mente que se trata de um investimento. Ao invés de continuar pagando energia para a concessionária, ela estará adquirindo um equipamento que retorna o valor gasto em aproximadamente quatro anos. Este período pode variar conforme o valor da tarifa, que, inclusive, só tem aumentado devido à utilização de termoelétricas por causa de estiagens e o crescimento da demanda. Ecologicamente, as vantagens são muitas, pois além de estar deixando de consumir energia gerada de forma prejudicial ao ambiente, as pessoas estarão mais em contato com o pensamento sustentável”, afirma Eduardo Terra, integrador fotovoltaico da Solar Economy, empresa especializada em energia solar no Rio de Janeiro.

Eduardo explica que existem dois sistemas de captação distintos. O modelo chamado “Off-grid” utiliza baterias estacionárias para armazenar a energia gerada ligadas às fases do quadro de luz. “Se a iluminação estiver ligada numa fase com as baterias, e se for preferencialmente de Led, pelo baixo consumo, um sistema de poucas placas e baterias pode fornecer autonomia completa.  Caso haja falta de luz pela concessionária, as luzes continuam acesas. Para equipamentos que consomem mais, como elevadores, bombas hidráulicas e ar condicionados, o gasto com placas e baterias será maior, inclusive com manutenções recomendadas entre cinco a dez anos de uso”, explica o profissional.

Já o sistema “On-grid” é conectado à rede de energia elétrica convencional. Regulamentado em 2012 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o modelo dispensa o uso das baterias, pois a concessionária exerce a função de armazenar a energia que não foi consumida durante o dia. Este excedente é contabilizado pelo medidor bidirecional e descontado na conta de luz. É importante ressaltar que existe um valor mínimo cobrado, estipulado em lei, mesmo que seja produzida toda a energia consumida. “Por isso, dimensionamos o sistema para gerar na faixa de 90% do consumo médio mensal. Os créditos que não forem usados tem prazo de 60 meses e podem ser compartilhados com outro local que tenha mesma titularidade e concessionária. A principal diferença em relação ao “Off-grid” é a utilização do inversor, que, para proteção dos técnicos da concessionária, desliga automaticamente durante reparos na rede elétrica em casos de falta de luz. Esse sistema possui, também, isenção de impostos na aquisição dos equipamentos (IPI e ICMS) e abastece tudo o que estiver conectado ao medidor, inclusive ar condicionados. Em breve, deve ser homologado, ainda, pela Aneel o sistema híbrido (On-grid + Off-grid), conectando baterias ao inversor”, acrescenta Eduardo.

A partir de R$ 10 mil, é possível montar sistema de geração solar

Segundo Eduardo Terra, com um investimento a partir de R$ 10 mil é possível montar um sistema com seis placas, com potência de 1.62 kWp, gerando em média 180 kWh por mês. “Os sistemas com 12 placas saem, em média, por R$ 17 mil e, os com 24, por R$ 30 mil. A relação é de aproximadamente R$ 1.250,00 por placa. Um condomínio com consumo médio de 5000 kWh por mês nas áreas comuns precisaria investir na faixa de R$ 200 mil para ter autonomia energética”, afirma o profissional.

No entanto, é preciso ter mais do que o dinheiro em caixa para o investimento, mas, também, espaço para a instalação do sistema. “O consumo das áreas comuns é alto, então, para suprir toda essa energia é preciso uma grande quantidade de placas. E mesmo sem conseguir a autonomia, a energia solar é sempre garantia de economia. O sistema eólico é também uma boa opção complementar”, explica Terra.

Na opinião dele, o segmento ainda tem muito o que avançar: “Devido à recente crise econômica e as altas taxas de desemprego, o mercado de energia solar no Rio de Janeiro ainda está na fase inicial, com poucas empresas de instalação e demanda. Qualquer telhado voltado para as direções norte, leste e oeste possui altos índices de insolação e potencial para geração de energia. O Governo Federal incentiva com isenção de impostos nos equipamentos, mas ainda precisamos de incentivos municipais. Cidades como Belo Horizonte, por exemplo, oferecem descontos no IPTU para os adeptos do sistema de energia solar”, conclui.

Mercado de construção imobiliária aposta em fontes alternativas

Não é incomum encontrar novos empreendimentos imobiliários já entregues com sistemas de energia solar para as áreas comuns. Mas as novidades no segmento vão ainda além. Em Belo Horizonte, por exemplo, foi construído recentemente um condomínio de grande porte com um sistema de geração de energia solar fotovoltaica para cada unidade. Projetado pela MRV Engenharia, o Spazio Parthenon possui 440 unidades, com eletricidade gerada através de energia solar fotovoltaica, abastecendo todos os apartamentos e as áreas comuns.

Segundo Luis Henrique Capanema, gestor executivo de suprimentos da construtora, a usina fotovoltaica do condomínio tem uma potência de 437,25 kWp, o que equivale a uma geração de energia mensal de 52.800 kWh. “Para essa potência, 1.650 placas foram instaladas no empreendimento, o que corresponde a um investimento de mais de R$ 1,5 milhões. Em resumo, 120 kWh serão geradas por mês para cada apartamento. Deste valor, 105 kWh/mês serão destinados ao consumo próprio de cada apartamento e 15 kWh/mês serão direcionados para a área comum. Caso o morador não consuma toda a energia produzida pelo sistema, o excesso é convertido em crédito de energia a ser utilizada em até 60 meses”, explica o gestor.

Financeiramente, ele diz que isso pode representar uma economia de R$ 520 mil anualmente. Já ambientalmente, são 380 toneladas de CO2 deixadas de ser emitidas anualmente. “Em 2017, essa tecnologia foi aplicada em 30% das unidades habitacionais lançadas pela construtora com geração de energia solar fotovoltaica para as áreas comuns dos condomínios. Nos próximos cinco anos, todos os nossos empreendimentos terão o sistema de energia fotovoltaica e estimamos investir cerca de R$ 800 milhões na implantação neste período”, conclui.

 

Light troca resíduos recicláveis por desconto na conta de luz

Os síndicos do município do Rio de Janeiro possuem, ainda, outra maneira de economizar com o gasto de eletricidade. A Light, concessionária de energia da cidade, possui o programa “Light Recicla”, que troca resíduos recicláveis por bônus na conta de luz. Os participantes se cadastram, recebem o cartão do cliente e passam a entregar o material em troca desses bônus. Atualmente, a empresa disponibiliza10 ecopontos para a entrega e cadastro na cidade. Cada item tem um preço por peso que gera o crédito.

No entanto, apenas os clientes residenciais tem a opção de receber o bônus na sua própria conta de energia por meio da entrega dos materiais recebidos pelo projeto. Para os comerciais, o desconto deve ser doado para uma das instituições sociais cadastradas pela empresa. Os interessados devem acessar a página da empresa na internet <light.com.br> para ler os termos e detalhes do projeto.