Rio de Janeiro, 23 de março de 2020

Com a mão na terra

Em busca de uma vida mais saudável, moradores, síndicos e construtoras investem em hortas comunitárias, que além de auxiliar numa alimentação mais saudável, se transformam em verdadeiros espaços de convivência
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LEONARDO MONTEIRO (1)
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Mario Camelo

Você sabia que, em 2019, o comércio de alimentos orgânicos movimentou R$4,5 bilhões em todo o Brasil? Os dados são do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), que afirmou ainda que o ritmo acelerado do consumo de orgânicos deve continuar crescendo nos próximos anos. A preocupação com a saúde e com uma alimentação adequada faz com que os brasileiros busquem soluções para se alimentar melhor diante de um cenário não muito animador quando pensamos na qualidade da comida que chega às nossas casas.

Para se ter uma ideia, somente no ano passado foram liberados 503 registros de novos agrotóxicos no Brasil. Um número recorde de liberações. Ao longo do ano, 26 pesticidas inéditos foram considerados permitidos para consumo e ingestão. Outro fator de risco entre os produtos aprovados é o nível de toxicidade. Um total de 110 novos produtos – um em cada cinco – foram classificados pela Anvisa como extremamente tóxicos, a classe mais alta de perigo para seres humanos. Mesmo assim, eles estão liberados e podem estar, inclusive, na sua mesa.

Pensando nos benefícios que a alimentação orgânica pode trazer, alguns condomínios estão adotando uma medida bem simples, com um custo relativamente baixo, para trazer mais bem-estar, melhorias na alimentação e até mesmo uma motivação para a convivência entre os moradores: criar uma horta comunitária

Subsíndico do Condomínio Union Square, Setor Home, de 151 unidades, Antonio Gama assumiu o posto em agosto de 2018. Cerca de um ano depois, em setembro passado, a construtora da edificação sugeriu que se criasse algo para marcar a data do Dia da Sustentabilidade e foi então que veio a ideia de uma horta comunitária.

“A princípio tínhamos determinado um espaço pequeno, porque não tínhamos certeza se a ideia iria vingar, se as pessoas iriam se comprometer a ajudar… Então, começamos com uma horta bem pequena. Aquelas sementes brotaram e as pessoas começaram a achar bacana e a se envolver com a ideia. A coisa foi vingando aos poucos. Pouco tempo depois, a horta se tornou tão querida dos moradores, que tivemos que migrar para uma área maior. A horta antiga, hoje, virou um local para plantar as mudas”, conta ele.

Para incentivar a manutenção da horta entre os condôminos, Gama estilizou um regador, que se tornou o xodó de quem usa a horta e, principalmente, das crianças do prédio. Todos passam por lá para regar as folhas e verduras.

A divulgação do novo espaço – que hoje tem cerca de cinco metros quadrados – também não deixou a desejar: informativos por e-mail e convites para as pessoas visitarem e conhecerem o novo espaço de convivência. Hoje, a horta que possui tomate, cenoura, alface, couve, pimentão, pimenta, pepino, manjericão, hortelã, alho-poró e cebolinha, entre outros itens, é utilizada por cerca de 20% dos moradores, segundo o subsíndico.

“A manutenção, propriamente dita, é feita pela jardinagem e a rega é praticamente de todo mundo que passa por lá. Tem o estímulo do regador também. E no local, instalamos um cartaz com instruções para que os moradores utilizem o espaço e retirem os alimentos da forma correta. Mas nós também estamos sempre disponíveis para ajudar”, relata.

O custo, segundo Antonio Gama, acabou se tornando praticamente irrisório ao longo do tempo. “O custo maior foi com a preparação do espaço, mas o investimento se demonstra muito pequeno em comparação aos benefícios a longo prazo. Não só para a alimentação dos moradores, mas também pela convivência. Hoje mesmo recebi a informação de que pessoas que estão visitando as unidades para fazer locação se empolgam com a hortinha e até comentam que vão querer morar aqui só por causa dela”, relembra.

Já no Condomínio Ravenala, em Belo Horizonte, a gestora Dayse Domingos diz que chega a ter “engarrafamento” na hora do almoço para utilizar a horta comunitária, que já foi entregue pela construtora antes mesmo dos primeiros moradores chegarem ao prédio, de 144 unidades, que criou um espaço sustentável para os moradores. Dayse calcula que, por lá, cerca de 45% das unidades já utilizem a horta.

“Não é uma horta muito grande em comparação à quantidade de moradores. Então, às vezes, o ritmo de retirada é bem maior do que o ritmo de crescimento. Mas vemos isso como uma oportunidade de melhoria e estamos caminhando para poder tornar mais viável a utilização”, diz ela, que está há seis meses na gestão do condomínio. Dayse comenta ainda que no Ravenala, os próprios moradores cuidam, regam e fazem a retirada dos itens da horta, também com o auxílio da empresa de jardinagem.

“A horta é um espaço integrado à área gourmet. Então, quando a pessoa vem retirar, temos que ir até lá, abrir e acompanhar. Acaba se tornando uma atividade prazerosa para todos”, diz Dayse, que tem planos de transformar o espaço numa horta vertical. “Assim seria mais eficiente em relação à questão do espaço e também evitaria que os moradores pisem sem querer ou que as crianças usem de forma incorreta”, completa.

Gestor do Condomínio Etage, localizado em Botafogo, Leonardo Monteiro também relata um custo muito baixo com a horta do prédio, que possui 70 unidades. “Quando entramos na administração, já existia a horta. Nosso único custo mensal é com a aquisição de sementes, que na verdade é praticamente nenhum. E muitas vezes, os próprios moradores doam mudas, o que também ajuda a economizar. Como o cuidado da horta também está incluso no contrato com a empresa de jardinagem, não sentimos nenhum peso no orçamento”, conta.

A horta do condomínio possui hortaliças, verduras, mas principalmente temperos – os queridinhos dos moradores. Couve, hortelã, alecrim, tomilho, boldo, pimenta, quiabo e salsinha estão na lista de itens mais utilizados por cerca de metade das unidades do condomínio, segundo o gestor.

Leonardo conta que os condôminos fazem uma utilização responsável do local e que a horta não “seca” em nenhum momento do ano. “Inclusive, como temos uma área verde extensa e muitas crianças no condomínio, aconteceu uma vez de o jardineiro ensinar a elas como cuidar da horta, como plantar… Ele deu uma verdadeira aula. Para evitar também que elas destruíssem o espaço. Eles amaram. Foi um momento que estamos pensando em transformar em atividade para os pequenos”, diz.

No condomínio, tudo se mantém por meio das próprias mudas que a horta dá e pelas doações. Alguns funcionários também acabam utilizando os itens e não tem nenhuma restrição contra isso. “A prioridade, é claro, é dos moradores, mas se houver o suficiente, os funcionários também podem levar e normalmente é o que acontece. Torna-se um ambiente de utilização de todos e isso ainda melhora o convívio entre as pessoas que trabalham no condomínio”, ressalta.