Rio de Janeiro, 13 de maio de 2016

Xô, zika!

Deixe o mosquito Aedes Aegypti bem longe de seu condomínio Continue lendo

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Aline Durães

De 500 mil a 1,5 milhão de pessoas. Essas são, respectivamente, as estimativas otimista e pessimista do Ministério da Saúde sobre o número de brasileiros infectados pelo zika vírus Transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti, mesmo vetor da dengue e da febre chikungunya, o zika tem entre seus principais sintomas febre baixa, olhos vermelhos, dores nas articulações e manchas vermelhas ou brancas pelo corpo. De baixa letalidade, o vírus — já presente em mais de 20 estados brasileiros — fica incubado no corpo em um período de até quatro dias após a transmissão; depois disso, aparecem os sintomas, que podem durar até uma semana.

O zika tinha tudo para ser apenas um dos vírus que aparecem no verão brasileiro e chamam atenção mais pelo volume de pessoas infectadas e menos pelos infortúnios que causa, já que seus sintomas são mais brandos e o índice de mortalidade bem menor do que a dengue. Até o início de 2016, foram confirmados apenas dois óbitos por zika vírus, contra as 843 registrados por dengue em 2015.

O vírus zika tinha tudo para ser mais um, mas não é. E isso se deve, principalmente, às doenças que estão associadas a ele. A mais importante deles é a microcefalia. Já foi comprovado que o vírus zika impede o crescimento normal do sistema nervoso de bebês gerados por mães contaminadas, causando a microcefalia, condição neurológica em que a criança nasce com o cérebro menor do que o normal, o que lhe impõe graves limitações ao longo da vida.

Desde abril de 2015 — quando o vírus foi identificado pela primeira vez — até março de 2016, foram confirmados 907 bebês com microcefalia ou alterações do sistema nervoso, segundo boletim do Ministério da Saúde; outros 4.293 ainda estão sob suspeita. Até o segundo mês do ano, já eram 235 municípios atingidos, em 25 estados. A título de comparação, antes do vírus, a média anual de casos de microcefalia era de 150 bebês.
As estatísticas — somadas às sequelas graves que a doença provoca nas crianças — contribuíram para alçar o zika vírus ao status de maior problema de saúde pública enfrentado pelo país nos últimos anos. Mas o problema deixou de ser exclusividade do Brasil há algum tempo: 100 mil casos da doença já foram registrados apenas na América Latina, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e a projeção é que, se nenhuma medida de contenção efetiva for acionada, até três milhões de latino-americanos podem contrair o vírus.

Mosquito doméstico
O principal transmissor do zika vírus é o já conhecido Aedes Aegypti. Alimenta-se de sangue humano e tem hábitos diurnos, picando, em especial, durante o dia. Outra característica importante do mosquito é seu comportamento doméstico. Pesquisas apontam que até 80% dos focos de Aedes Aegypti estão em residências, já que o mosquito reproduz em água limpa e parada que pode ser encontrada, entre outros locais, em caixas d’água, galões e tonéis, vasos de plantas, calhas entupidas, garrafas, bandejas de ar-condicionado e poço de elevador.

Considerando isso, o combate ao mosquito nos condomínios ganha vulto especial. Além de criar mecanismos que impeçam a reprodução do Aedes Aegypti nas áreas comuns da unidade, o síndico pode ações que incentivem a eliminação dos focos de zika vírus também nos apartamentos.

No condomínio San Remo, com nove unidades em Copacabana, a luta contra o mosquito vem de muito tempo, desde antes de o zika vírus aparecer e se tornar uma ameaça pública à população. Apesar de não haver registro de condôminos ou funcionários contaminados pelas doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti, a síndica Maitê Lima Bracco faz questão de fiscalizar os possíveis focos de contaminação: em parceria com os empregados do condomínio realiza varreduras em plantas, na garagem no subsolo, em drenos de ar condicionado e na laje.

Ela conta que, na tentativa de deixar o surto de zika vírus longe de sua unidade, chegou a investir em uma obra no dreno da lixeira, que estava acumulando água indevidamente. “Nós não estamos gastando com inseticidas como tenho visto em outros condomínios. Isso só mata os mosquitos da rua e não as larvas e nem o Aedes Aegypti. Nossos investimentos são na prevenção. Tivemos de fazer algumas obras de manutenção, que contribuem para prevenir, como o dreno da lixeira, que estava acumulando água internamente e desembocava na garagem. Com isso, formavam-se pequenas poças e novos drenos na laje. Após as chuvas, ela entupia e acumulava água”, conta a gestora.
Além de promover as adaptações necessárias na estrutura e a fiscalização nas áreas comuns do condomínio, o síndico deve também agilizar o acesso dos agentes de combate a endemias às residências. A ideia é orientar porteiros e condôminos sobre a importância desses profissionais para o combate ao mosquito.

Se não fizer isso, o gestor estará descumprindo a lei. Isso porque, desde o início de fevereiro, está em vigor a medida provisória Nº 712, publicada em Diário Oficial, que autoriza os agentes de saúde a forçar a entrada em imóveis públicos ou particulares para destruir focos do mosquito, ainda que o dono não seja localizado ou o local estiver abandonado. A medida permite, inclusive, que a polícia seja acionada caso os agentes precisem entrar em algum local com suspeita de abrigar criadouros do Aedes Aegypti.

Proteja seu condomínio
Se você quer ver seu condomínio livre do Aedes Aegypti tudo que tem que fazer é exterminar todos os criadouros possíveis do mosquito. Dependendo da temperatura, da disponibilidade de alimentos e da quantidade de larvas existentes nesses criadouros, o ciclo de vida do mosquito será maior ou menor. Na média, são necessários dez dias para que o ovo se transmute e dê origem ao inseto. Daí a necessidade de fiscalizar os focos, pelo menos, uma vez por semana.

Durante a fiscalização, é importante lavar e esfregar, com escova ou palha de aço, as paredes dos possíveis criadouros. Sabe-se que o Aedes aegypti coloca seus ovos, preferencialmente, nas bordas dos recipientes e eles podem ficar grudados ali, com possibilidade de eclosão, por até 450 dias.

Qualquer reservatório de água ou espaço côncavo pode virar um criadouro. A piscina, por exemplo, é um ambiente que exige atenção. É preciso que a água seja filtrada a cada oito horas, além de limpa com cloro regularmente, embora a eficácia da substância no combate ao mosquito seja questionada por alguns especialistas. As bordas devem ser esfregadas com vassoura, e até mesmo as espreguiçadeiras próximas ao local precisam ser retiradas ao final do dia, já que possuem cavidades passíveis do acúmulo de água.

As plantas, que tanto embelezam as áreas comuns dos condomínios, exigem alerta redobrado. É importante evitar que a água se acumule nos pratinhos. Para isso, na hora da rega, o condomínio deve priorizar o uso de um regador de bico longo e fino. Assim, fica mais fácil de água atingir apenas a terra do vaso. Pelo menos uma vez por semana, os recipientes de plantas devem ser escovados com água e sabão.

Também as lajes e marquises — que acumulam, em especial, água da chuva — devem ser checadas e limpas semanalmente. Nesses locais, é importante que o escoamento esteja sempre desobstruído, evitando, assim, o acúmulo de água e a formação de poças.

Os ralos e as caneletas precisam ser com telas de nylon, de trama de um milímetro. Já as caixas d’água devem ser vedadas corretamente e avaliadas, em manutenção preventiva, a cada seis meses. A medida, além de contribuir para dissipar os riscos de proliferação das larvas do Aedes, melhora a qualidade da água no condomínio no geral.
A área do playground — tão concorrida pelas crianças e adultos do prédio em fins de semana — demanda atenção extra. Um simples baldinho ou outros recipientes que servem como brinquedo, se não fiscalizados, podem acumular água, assim como escorregadores desnivelados. A dica aqui é, diariamente, de preferência no turno da noite, depois de a área ser esvaziada pelos condôminos, um funcionário da unidade virar de cabeça para baixo todos os brinquedos.

Por incrível que pareça até mesmo os vasos sanitários dos banheiros do play podem se converter em focos do mosquito do zika, especialmente se eles ficarem destampados por muito tempo. Por isso, o ideal é deixa-los com a tampa fechada e instruir um funcionário a acionar sua descarga pelo menos uma vez por semana. Se, na área comum, houve algum vaso sanitário sem uso ou caixa de descarga sem tampa, uma saída viável é vedá-los com plástico filme ou sacos plásticos.

Por último, mas não menos importante, há de se fiscalizar os fossos de elevador. Para evitar o acúmulo de água, o condomínio precisa promover vistoria semanal na área e, se for o caso, executar corretamente o bombeamento e o escoamento dessas estruturas.

No Albert Sabin, na Tijuca, Ovidelina Marmo convocou os funcionários para fazer ronda no condomínio de 41 unidades. Eles são orientados a não deixar água acumulada nas áreas comuns, em especial na garagem, em ralos e lixeiras.

Mas o trabalho dos empregados não basta. O condomínio também investiu em grelhas com telas nas caneletas de escoamento de água da garagem, localizada no subsolo do prédio. Para a gestora, um investimento que valeu a pena. “A colocação das grelhas custou cerca de R$ 6 mil. Ainda serão necessários mais R$ 6 mil para o término do projeto. Mensalmente, gastaremos também R$ 700 com métodos de prevenção da proliferação do mosquito. Estamos fazendo a nossa parte para evitar a propagação da epidemia em nossa área”, sublinha Ovidelina.

Fora todos esses investimentos em estruturas que afastem o perigo da zika do Albert Sabin, a síndica Ovidelina recorre também a vistorias regulares dos agentes da Prefeitura do Rio para aplicação de produtos específico contra o Aedes Aegypti. “Isso nos protege. Não tivemos nenhum caso de zika. Alguns condôminos já relataram, no passado, terem adquirido dengue, mas nunca esteve relacionado a algo do condomínio”, afirma.

Conscientização, a maior arma
O síndico não tem qualquer ingerência no que acontece da porta para dentro de uma unidade, mas é fato que pouco adiantará o gestor empreender ações de prevenção ao Aedes Aegypti se os condôminos não fizerem o mesmo em suas casas. Daí a importância de um trabalho de conscientização junto à comunidade predial.

As mesmas medidas adotadas para eliminar os focos de zika e dengue nas áreas comuns do condomínio valem também para as unidades. Afinal, a premissa é igual: evitar o acúmulo de água em recipientes ou qualquer outro espaço.

No caso das residências, a varanda é um ambiente que deve ser monitorado com mais atenção. A sugestão é o morador fiscalizar possíveis focos do mosquito em plantas, vasos e ralos existentes no local. Além destes, vasilhas dos bichos de estimação, bandeja de água do ar-condicionado e bandeja externa da geladeira devem estar limpas, secas e protegidas da chuva. Caso o condômino vá viajar, entre os cuidados a serem observados, estão colocar garrafas e vasilhas de boca para baixo e cobrir ou tampar os potenciais repositórios de larvas de mosquitos já citados.

O trabalho de conscientização é parte do combate ao Aedes Aegypti no Albert Sabin, na Tijuca. A orientação da síndica Ovidelina Marmo é que todos façam a sua parte para impedir surtos de zika e dengue no prédio. Regularmente, afixa avisos no quadro de anúncios e elevadores, tentando engajar todo o condomínio nessa luta. “Cremos que eles estejam agindo responsavelmente. É importante que o síndico aja de forma proativa, não se omitindo diante do problema e cobrando responsabilidade de todos: moradores e funcionários”, disse.

É interessante que os funcionários sejam envolvidos no processo de conscientização. Qualquer comunicado sobre prevenção e combate merece ser entregue a eles, que poderão se tornar multiplicadores da campanha e influenciar diretamente os condôminos.

No San Remo, em Copacabana, todos também estão cientes de que somente a prevenção pode acabar com o mosquito e, consequentemente, com as doenças que ele causa. Não somente no condomínio, mas nos prédios vizinhos e na cidade em geral. “É imprescindível ficar antenado sobre as formas de prevenção e combate, procurar informações de como proceder, pedir ajuda aos moradores. Esse mosquito não é fácil. Eu mesma indiquei os repelentes elétricos para serem colocados no hall das portas dos moradores e eles funcionam! A prevenção é o custo-benefício mais viável e eficaz para o condomínio”, destaca a síndica Maitê Bracco.
Elimine os focos de Aedes Aegypti da área comum!
Em um condomínio, muitos são os possíveis focos do mosquito Aedes Aegypti. Saiba como cuidar de cada um deles para que o transmissor da Dengue, zika vírus e chikungunya não prolifere:
- Piscina: Além de filtrar a água a cada oito horas, é importante manter a água limpa e esfregar as bordas. A
- Plantas: utilize regadores de bicos longos para a rega das plantas e não acumule água em pratinhos. Uma vez por semana, escove os recipientes de plantas com água e sabão.
- Lajes e marquises: essas áreas devem ser desobstruídas, evitando, assim, o acúmulo de água e a formação de poças.
- Ralos e caneletas: proteja-os com telas de nylon, de trama de 1 milímetro.
- Caixas d’água: devem passar por manutenção preventiva a cada seis meses e ser vedadas corretamente.
- Brinquedos: diariamente, vire de cabeça para baixo os brinquedos do playground.
- Vasos sanitários: tampe os vasos sanitários e caixas de descargas. Caso não tenham tampas, o ideal é utilizar plástico filme ou sacos plásticos.
- Fossos de elevador: promova o correto bombeamento e o escoamento de água nessas estruturas.
A história de um vírus
De uma hora para outra, ele passou a ocupar jornais e programas de TV, mas de onde veio o vírus zika?
Estudos mostram que ele foi encontrado, pela primeira vez, em 1947, na Floresta Zika, em Uganda. Até 2013, contaminou poucas pessoas na Ásia, África e Oceania. Chegou às Américas apenas em 2014, quando foi identificado na Ilha de Páscoa, no Chile.
Que zika!
Que tal apelar para a Internet na hora de conscientizar seus condôminos?
Já está disponível no Youtube a websérie “Que zika!” que, com cinco episódios, objetiva informar melhor o público digital sobre o combate ao mosquito Aedes Aegypti. Cada capítulo traz em três minutos novas dicas de como eliminar os criadouros nas residências.
A dica é transmitir a websérie para seus vizinhos em reunião de assembleia, por exemplo. O primeiro episódio está disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=slJOsljfWJ0. Vale a tentativa!