Rio de Janeiro, 14 de maio de 2013

A vida no condomínio, e só no condomínio

Moradores, síndicos e estudiosos apontam vantagens e desvantagens deste novo estilo de vida da sociedade contemporânea Continue lendo

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A jornalista Isabella de Salignac, de 36 anos, mora desde agosto de 2011 no Condomínio Sol de Marapendi, na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio de Janeiro. Por lá, ela faz tudo: trabalha em casa, almoça no restaurante, malha na academia e frequenta a piscina e a sauna. Isabella já chegou a ficar uma semana inteira sem sair dos limites do prédio e sequer ligar o carro. “Como trabalho em casa, passo o dia inteiro no condomínio. Apenas quando tenho uma reunião fora é que me ausento do apartamento, o que é raro”. Quem acha o comportamento muito radical, pode ter uma surpresa. O fato é que o número de pessoas que vêm alinhando a sua rotina para passar o máximo de tempo possível “em casa” é cada vez maior. Especialmente em bairros como a Barra da Tijuca, que abrigam condomínios com uma infraestrutura digna de uma mini-cidade: academias, escolas, mercados, padarias, centros ecumênicos e até shopping centers fazem parte dos serviços.

E quais seriam os principais fatores que levam os condôminos a optarem por este estilo de vida? A maioria declara: em primeiro lugar a segurança, e depois, a comodidade. “Com a cidade cada vez mais violenta, me sinto muito mais tranquila ficando em casa. Quando morei no Recreio, o condomínio era aberto. E chegar tarde da noite naquela escuridão me deixava muito preocupada”, afirma a arquiteta Leila Dionízios, que mora no Península – também na Barra – há dois anos. Para ela, além da segurança, a praticidade também é levada em conta. “O meu escritório é bem pertinho. O do meu marido também. Eu me encantei com a comodidade. Temos tudo aqui dentro. Antes, nós dois gastávamos cerca de R$ 2 mil por mês em comida. Agora, só almoçamos em casa. É uma baita economia”, diz.

O administrador Élber Goulart, preposto da APSA no Condomínio Rio 2, comanda a AmoRio2, associação criada com o intuito de dirigir as demandas do espaço, que possui, ao todo, 4.900 unidades, mais de 17 mil moradores e benefícios como uma igreja, duas escolas, um mercado e um shopping center. Ele concorda que a segurança é o principal motivador dos condôminos, no entanto, viver num grande condomínio também tem seus percalços: “Os condôminos nem sempre convivem bem com as diferenças. Frequentemente presencio discussões, mas isso é normal, afinal, são muitas pessoas com interesses divergentes”, diz ele, que cita o transporte como um dos assuntos mais polêmicos. “Temos mais de 30 veículos que levam as pessoas a diversos pontos da cidade, no entanto, o trânsito pesado acaba atrapalhando os horários. Mas, colocando na balança, compensa e muito”, afirma.

Vivendo na bolha?
Alguns estudiosos deste novo comportamento da sociedade utilizam a expressão “viver na bolha”. A bolha seria o condomínio, lugar onde se tem os mais diversos serviços disponíveis a qualquer hora. A principal crítica deste estilo de vida é em relação às restrições de convívio social.  De acordo com alguns pesquisadores, condomínios fechados geram um isolamento da cidade. Outros discordam. O fato é que o assunto divide opiniões.

Doutora em Psicologia Social e professora da Universidade Veiga de Almeida, Ligia Claudia Gomes de Souza, não vê esta vivência de forma positiva. “Esse tipo de moradia impede que as novas gerações se deparem com as diferenças, uma vez que o diferente, ou seja, aquele que não pertence à sua própria classe social está fora desses ‘ambientes protegidos’. Essa impossibilidade de viver a alteridade faz com que esses grupos sociais vejam os outros – os que não vivem naquele ambiente – como suspeitos de alguma atitude negativa”, dispara ela.

Já o doutor em sociologia pela Universidade René Descartes (Paris V – Sorbonne) e professor da Uerj,  Ricardo Freitas, tem outra opinião. Ele pesquisou a Barra da Tijuca por mais de dez anos, e acredita que este estilo de vida está atrelado à sociedade contemporânea principalmente por causa da violência. “A violência acaba virando também um objeto de consumo, pois as pessoas querem estar longe dela e pagam por isso. Não acho que viver num condomínio assim possa ser classificado como positivo ou negativo. Todos tem livre arbítrio e podem escolher como morar. O que me preocupa é o fato de abandonarmos o espaço urbano, apesar de ao mesmo tempo achar isso impossível, pois a cidade nos chama para vivê-la”.

Freitas acha a expressão que evoca uma bolha contraditória: “Uma coisa é certa, as pessoas não querem estar sozinhas o tempo todo. Elas sentem necessidade de convivência, e viver num condomínio fechado, não necessariamente vai isolá-las. O que acontece é que, no cotidiano, as relações podem ficar mais superficiais. Porém, todos continuam sabendo quem é o porteiro, o que mostra mais uma vez o quanto isso pode ser divergente”.

Um dos coordenadores do negócio Gestão Total, da APSA, Artur Pignataro também é a favor do livre arbítrio e acha que quem mora em condomínios fechados tem opções de escolher se quer ou não ficar ali. “Um exemplo: digamos que o condômino queira sair com os amigos para um bar. Ele precisa pegar o carro, não vai poder beber, está sujeito a encarar problemas na rua… Enfim, uma série de fatores. Mas se ele vai ao bar do condomínio, é tudo mais fácil. É menos preocupação e mais tranquilidade. Com a escola é a mesma coisa. Levar os filhos para a esquina é muito mais cômodo para uma família e evita transtornos como o trânsito. São muitas vantagens. Acredito que, por isso, este estilo de vida virou uma tendência”, aponta ele, lembrando que os benefícios oferecidos pelos condomínios também valorizam o preço do imóvel.

A arquiteta Leila Dionízios também chama a atenção para outro ponto. “Quem tem filhos, não pode negar que se sente muito mais seguro quando sabe que eles estão perto de casa. No entanto, tem que saber dosar ou eles podem crescer sem maturidade. Sem saber se virar sozinhos”, sentencia.

Palavra do mercado
Um estudo sobre segurança e valorização imobiliária divulgado em janeiro deste ano pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revelou que os imóveis que geram maior sensação de segurança, caso dos condomínios fechados, são mais valorizados no mercado. Segundo a pesquisa, o fator segurança pode acarretar numa alta de até 30% no valor.

O vice-presidente de assuntos condominiais do Secovi Rio, Alexandre Corrêa, identifica que este estilo de vida é uma tendência natural da sociedade, principalmente na fatia da população incluída na Classe Média. “A qualidade de vida é determinante. Numa grande metrópole como o Rio de Janeiro, que tem trânsito, Lei Seca, violência… Morar num lugar que de certa forma é protegido representa muitas vantagens. Esse modelo é comum em bairros da Zona Oeste, como a Barra da Tijuca, e está se alastrando para outras regiões, como a Zona Norte. A população que está ascendendo economicamente está muito interessada nisso, no entanto, é importante levar em conta que esse padrão de vida tem um ônus alto de manutenção. Portanto, antes de se mudar para um condomínio assim, é preciso checar o custo-benefício”, lembra.

Ele ainda dá dicas aos síndicos: “administrar um prédio com tantos serviços não é uma tarefa fácil. É preciso escolher bem o time de funcionários e até optar por auxílio de administração profissional para manter tudo funcionando corretamente. Outro ponto importante é sempre apresentar a convenção aos novos condôminos, pois eles precisam saber o que está e o que não está disponível. É uma atitude simples, que pode evitar uma série de problemas de convivência”.

 

Texto: Mario Camelo