Rio de Janeiro, 23 de maio de 2019

Reaproveitamento sustentável

Mais do que uma questão de bom senso, a coleta seletiva de material reciclável pode ser uma maneira de gerar renda para o condomínio Continue lendo

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Gabriel Menezes

A coleta seletiva de material reciclável já deixou de ser novidade há bastante tempo. No
entanto, ainda hoje, muitos condomínios não aderiram à prática, que, na maior parte dos
casos, vai muito além do que uma questão de consciência sustentável, mas, uma obrigação
legal. No Rio, por exemplo, desde 2013, a Lei Estadual 6.408 obriga a coleta seletiva para edificações residenciais com mais de três andares. Cabe ao síndico se informar e trabalhar
para a implementação do sistema, que exige a participação de todos os moradores para
que funcione adequadamente.

Coleta começa dentro das unidades
No Condomínio Barra Deck Leste, na Barra da Tijuca – administrado pela APSA –, o tema
tornou-se uma preocupação há cerca de uma década. De acordo com a síndica, Margaret
Guimarães de Oliveira, todo o processo começou com uma série de palestras,
primeiramente com moradores e depois com os funcionários, para conscientização,
sensibilização e orientação da importância da prática. “O processo, na verdade, começa
dentro dos apartamentos. Só é possível ter resultados efetivos na coleta seletiva se houver
colaboração e participação de moradores e funcionários”, explica a síndica do condomínio
de 40 unidades, divididos em dois blocos.

Segundo ela, os seis primeiros meses foram de trabalho intenso de conscientização, o que
foi fundamental para que toda a mudança fosse absorvida por todos os moradores. Desde
então, o dinheiro arrecadado com a coleta seletiva é repartido entre três funcionários
envolvidos no processo, uma forma de estimular ainda mais a participação deles. “Duas
vezes ao dia a faxineira vai até os andares, recolhe, primeiramente, o lixo orgânico e leva
até a lixeira central, localizada na garagem. Depois, ela retorna para levar o material
reciclável, que é colocado dentro do container em cada andar e levado para o nosso
depósito da reciclagem. Lá, ela retira um por um e completa os recipientes com o reciclável
anteriormente separado, cada objeto em um saco específico”.

Margaret acrescenta que a quantidade de material recolhido varia de mês a mês. “Em
períodos com datas festivas, ela é maior. Quando alguém se muda, também, pois juntam
muitas caixas de papelão. A coleta tornou-se uma realidade, mas, não existe perfeição.
Ainda temos problemas hoje, principalmente quando chegam moradores novos ou
mudamos algum colaborador que não está acostumado com a rotina de funcionamento do
sistema. Por isso, é preciso ter uma atenção contínua”, conta.

Ela frisa que, apesar dos gastos iniciais, com palestras, panfletos, placas, recipientes, sacos
e preparação do depósito, a implementação da coleta não impacta significativamente o
orçamento do condomínio. “Para os síndicos que queiram aderir à coleta, a minha dica é
que hoje há uma grande quantidade de empresas e profissionais especializados no
assunto. É importante consultar pelo menos três destas antes de iniciar os trabalhos”,
conclui.

Um exemplo de sustentabilidade
O Condomínio do Edifício Varandas de Olinda, em Botafogo, possui 70 apartamentos, duas
piscinas e duas saunas. Por lá, a coleta seletiva de material reciclável é levada tão a sério
que, em 2016, eles ficaram em primeiro lugar na disputa pelo prêmio “Condomínio
Sustentável”, do Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi-RJ).

De acordo com o síndico, Antonio Valdeci Martins, a iniciativa surgiu há oito anos por uma
questão de preocupação ambiental. “Levou pelo menos uns seis meses para que todos os
moradores se conscientizassem da importância da ação. Fizemos isso por meio de e-mails
e folders colados nas paredes e lixeiras. Hoje, conseguimos separar cerca de 80% do nosso
lixo mensal e reciclar. Isso dá uma média de 1500 quilos. O dinheiro arrecadado com a
venda desse material é dividido entre os funcionários da limpeza. Foi uma forma que
encontramos para motivá-los”, explica Martins.

Ele explica que os moradores colocam os recicláveis nas cestas armadas nos seus andares
e os funcionários, após todo o recolhimento, fazem a separação no depósito no subsolo.
“Creio que em todos os condomínios é possível implantar esse sistema. É só pensar nos
benefícios para o ambiente. Além disso, a satisfação que traz para os moradores é algo que
não tem preço”, conclui.

Orgânicos também podem ser reaproveitados

Já no Condomínio Golden Garden, em Botafogo, a coleta seletiva começou em 2001, e,
desde então, o dinheiro da venda dos materiais é dividido entre os funcionários da limpeza
uma vez ao ano. Em média, o valor arrecadado gira em torno de R$ 2 mil, repartido entre os
seis colaboradores. Composto por 88 apartamentos, divididos em dois blocos de 11
andares, o condomínio deu, também, um passo além no quesito sustentabilidade: os
moradores passaram a reaproveitar o material orgânico por meio de uma composteira. “O
húmus produzido na composteira é utilizado nos jardins do condomínio. Neste caso, foi
preciso uma conscientização ainda maior dos condôminos, explicando exatamente o que
pode ou não pode ser separado para reutilização, pois, se colocamos algo errado, as
minhocas morrem”, explica o morador Saul Cusnir, que, até o ano passado ocupava o posto
de síndico e foi o responsável pela implantação da composteira.

Para os síndicos que planejam adotar a coleta seletiva de material reciclável no seu
condomínio, uma boa opção é recorrer às assessorias especializadas. Existem empresas e
instituições que oferecem esse serviço levando em conta as particularidades de cada local.
O Reviverde é uma delas. Criado em 2000 por um grupo de ambientalistas, o instituto
presta uma assessoria personalizada aos condomínios, considerando que cada um tem as
suas características peculiares de espaço, tanto nos andares das lixeiras, como na
garagem, onde fica o depósito final do lixo comum e do material reciclável.

“Um condomínio novo na Barra da Tijuca, por exemplo, tem os espaços mais amplos nas
lixeiras dos andares. Já os condomínios com mais de 30 anos, ainda possuem o duto
coletor no compartimento das lixeiras, que são utilizados para o descarte do lixo misturado,
que cai diretamente no compactador que fica na garagem. Neste último caso, é feita uma
orientação para se mudar este tipo de descarte, com o fechamento do duto coletor, que tem
uma série de inconveniências, como a sujeira acumulada nas paredes, ocasionando mau
cheiro e baratas”, explica Regina Laginestra, diretora do Reviverde.

De acordo com ela, o trabalho de assessoria é desenvolvido seguindo uma metodologia de
seis passos. O primeiro deles é verificar quais são as mudanças necessárias e os espaços
disponíveis nos andares e na garagem. A partir daí, é a hora da conscientização, com a
divulgação do projeto para os moradores e funcionários, por meio de palestras, cartazes e
circulares. “Em seguida, é feito um treinamento com a equipe de limpeza na separação e
armazenamento dos materiais recicláveis, de maneira a não aumentar a carga horária de
trabalho. A partir do volume gerado, monitoramos a periodicidade do caminhão da empresa
sucateira, que irá comprar os materiais recicláveis”, explica.

Os últimos passos, destaca a especialista, são realizações de oficinas de reciclagem para
adultos e crianças, utilizando materiais como embalagens de plástico e alumínio, tampinhas
e revistas; e a divulgação dos resultados obtidos ao fim de cada mês. “O valor cobrado pela
assessoria leva em conta o número de apartamentos do condomínio. Alguns possuem
vários blocos, com muitos andares, o que requer uma equipe maior para o monitoramento
do projeto. Toda a parte gráfica, como sinalização das lixeiras, cartazes, circulares e folders,
são produzidos pelo nosso instituto. É importante ressaltar que os materiais recicláveis são
vendidos para empresas sucateiras, gerando, portanto, uma receita extra para o
condomínio”, comenta Regina.

A diretora do Reviverde frisa que ainda há muito o que se avançar no segmento, já que as
estatísticas mostram que apenas 3% dos materiais recicláveis chegam ao seu destino
correto: as indústrias de reciclagem. Além disso, ela acha que a fiscalização da Lei Estadual
6.408 – a principal no Rio com relação ao assunto – é totalmente falha. “Quando uma
embalagem reciclável é misturada com o lixo comum, ela não pode mais ser reutilizada,
pois fica contaminada. Ou seja, ela vai parar no aterro sanitário de Seropédica, onde ficará
soterrada e levará centenas de anos para se decompor. Um condomínio com 120
apartamentos que faz a coleta seletiva de maneira correta consegue gerar um volume de
duas toneladas mensais de materiais recicláveis. Se multiplicarmos este volume pela
quantidade de apartamentos no Rio de Janeiro, podemos chegar a números assustadores
de embalagens que são desperdiçadas”, conclui.

Conscientização é a base
O Projeto Recicloteca, que funciona como um centro de informações ambientais no Rio de
Janeiro, é um outro bom caminho para os síndicos que estão interessados em adotar a
coleta seletiva no seu condomínio. Ele oferece informações gratuitas via site, e-mail e
telefone, além de opções pagas, como palestras e consultorias exclusivas.

De acordo com o consultor ambiental Eduardo Bernhardt, consultor do projeto, é essencial
nos dias de hoje que a população se dê conta de que a coleta seletiva é uma forma muito
eficiente de ampliar a vida útil dos aterros sanitários, reduzir os impactos das estações de
transferência de resíduos e melhorar a gestão dos resíduos das cidades. Todos estes
ganhos refletem em melhorias econômicas, sociais e ambientais para toda a sociedade. “É
importante, ainda, se atentar para algumas questões. Primeiro, há uma ilusão de que o
condomínio vai lucrar muito com a coleta seletiva. Não é porque alguns condomínios
conseguem auferir uma receita com a venda de recicláveis que todos vão conseguir. Os

grandes condomínios têm uma condição mais favorável ao lucro, por conta do volume de
material reciclável que geram”, alerta o especialista.

Outro ponto fundamental, segundo ele, é que os síndicos instruam os funcionários a não
venderem os sacos dos recicláveis para os caminhões de sucateiros não legalizados que
passam antes do caminhão de coleta seletiva da prefeitura ou das cooperativas legalmente
instituídas. “Essa prática prejudica o avanço do segmento. Além disso, esses sucateiros
geralmente utilizarem caminhões em péssimas condições e ignoram os horários de
restrição ao tráfego de veículos pesados”, comenta Bernhardt.

Para o consultor, o setor, apesar de ainda ter muito o que avançar, passou por
transformações nos últimos anos. “Hoje, já é possível contar com serviços de coleta porta-a-
porta de recicláveis, de resíduos eletrônicos e até de lâmpadas fluorescentes, ainda que
pagos. Mas, também é possível levar estes resíduos todos aos Postos de Entrega
Voluntária. E, de um jeito ou de outro, estas opções levam a sociedade a se apropriar mais
da sua parcela de responsabilidade quanto aos diferentes resíduos que ela gera em
diferentes locais”, conclui.

Prefeitura recolhe cerca de 1,7 mil toneladas de recicláveis por mês
O Rio de Janeiro é uma das poucas cidades do Brasil que conta com um serviço de coleta
seletiva público. A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) faz o trabalho na
cidade desde junho de 2013. Atualmente, são 113 bairros atendidos e uma média de 1.700
toneladas de materiais recolhidos mensalmente, em 26 roteiros diários de coleta. Todas as
informações sobre dias, horários e roteiros podem ser obtidas na página da companhia na
web, no endereço www.rio.rj.gov.br/comlurb/coletaseletiva.

Para que a coleta seja eficiente, os materiais recicláveis devem ser colocados limpos e
secos, em sacos plásticos transparentes, pois assim o gari poderá verificar o conteúdo,
evitando a mistura do material reciclável com o lixo domiciliar. Os sacos pretos são
destinados apenas para lixo orgânico e lixo úmido e não serão coletados pela equipe da
coleta seletiva. São coletados papéis, metais, plásticos e vidros, secos e limpos, sendo que
não é necessário separar o material por tipo.