Rio de Janeiro, 2 de abril de 2019

A tecnologia como aliada para a comunicação

Síndicos aderem ao uso das redes sociais como uma ferramenta para ajudar na administração dos condomínios, mas é preciso tomar cuidados Continue lendo

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Gabriel Menezes

Cada vez mais, as redes sociais são uma realidade no dia a dia das pessoas, seja por
motivos pessoais ou profissionais. Nos condomínios não é diferente, e elas vêm se
transformando numa poderosa ferramenta de comunicação entre os moradores. Mas, é
preciso estabelecer regras e tomar cuidados para não deixar que o que veio para facilitar se
transforme em pivô de confusões e brigas entre os vizinhos. Cabe ao síndico monitorar o
uso correto dos aplicativos e evitar que ele fuja do intuito pelo qual foi adotado.

Administrado pela APSA, o Condomínio Aníbal Machado, no bairro de Ipanema, utiliza as
redes sociais desde setembro de 2015. De acordo com a síndica, Gabriela Duarte, o
WhatsApp é a principal ferramenta adotada. “Utilizo o WhatsApp para ficar a par de tudo
que está acontecendo dentro do condomínio, como a possível quebra de um dos
elevadores, a falta de água ou reclamações e sugestões de algum dos moradores”, conta a
síndica do condomínio, que possui 13 apartamentos e uma galeria comercial com 15 lojas.

Segundo ela, desde então, a resolução das demandas internas passou a acontecer de
forma muito mais rápida e eficaz, o que agradou aos condôminos. “O WhatsApp é uma
forma, também, de envolver todos os moradores nas questões do dia a dia. Apesar de eu
ser a síndica, preciso trabalhar sempre de acordo com a vontade da maioria e deixá-los
informados do que está sendo feito. Outra vantagem é a possibilidade de saber de tudo
mesmo à distância, por exemplo, quando viajo”, explica.

Ela ressalta que o Facebook e o Instagram também são utilizados pelos moradores, mas,
como ferramentas de socialização. “Somos todos amigos e seguidores uns dos outros,
inclusive os porteiros. Com isso, ficamos sabendo dos aniversários e outras novidades
bacanas. Isso foi muito benéfico e aproximou os vizinhos”, conclui.

APLICATIVO PODE AJUDAR NA TOMADA DE DECISÕES
No Condomínio do Edifício Solar dos Girassóis, no bairro do Maracanã, o WhatsApp vem
sendo utilizado há três anos. Segundo a síndica, Ana Cristina Culuchi, no grupo dos
moradores, ela costuma postar principalmente informativos do dia a dia: “Aviso sempre
quando vamos lavar as caixas d'água, se vamos dedetizar a área comum do condomínio,
se preciso que economizem água para não ultrapassarmos a meta de consumo, além das
benfeitorias e obras realizadas. Quando acontece algo de errado, também é colocado no
grupo, mas sem identificar quem errou, apenas como um exemplo para a conscientização
para todos. Em questões menores, já fizemos, inclusive, votações pelo aplicativo, o que
agiliza bastante a nossa vida”, conta.

Ela diz que a única regra de convivência no grupo dos moradores é de que sejam tratados
apenas assuntos e ocorrências pertinentes ao condomínio. “Algumas postagens de utilidade
pública e interesse geral são feitas também, mas os moradores são bastante conscientes,
não postam questões polêmicas. Nunca tive nenhum problema deste tipo”, ressalta Ana
Cristina.

Outro auxílio do aplicativo, acrescenta a síndica, é na resolução de conflitos entre os
vizinhos. “Quando acontece algum desentendimento entre dois moradores, a pessoa entra
em contato comigo pelo chat privado e eu resolvo também de forma privada com o outro
morador, sem maiores transtornos. Eu me sentiria completamente perdida hoje sem utilizar
o WhatsApp no condomínio”, conclui.

SÍNDICA E YOUTUBER
Quando se trata do uso das redes sociais como uma ferramenta de auxílio no dia a dia dos
condomínios, a síndica Catarina Anderáos é uma referência. Em dezembro de 2017, ela
criou um canal no YouTube chamado “Vou chamar a síndica”, que também possui páginas
no Instagram e no Facebook. Além de tratar das questões do seu próprio prédio, ela troca
experiências com outros síndicos sobre assuntos relativos ao tema. “Quando me tornei
síndica, os blogs estavam em alta e eu criei um na época para escrever crônicas de
situações engraçadas ou desabafos da vida de síndica, aproveitando também que sou
jornalista e tenho habilidade e facilidade para a comunicação. Em 2016, retomei a ideia das
crônicas, mas resolvi mudar o formato de comunicação e me arriscar nos vídeos e nas
redes sociais, já que é nessas plataformas que as pessoas estão presentes, se
relacionando, consumindo conteúdo, interagindo e buscando informações para todos os
assuntos, inclusive condomínio”, conta.

Segundo ela, o objetivo do canal é falar não só para pessoas que também administram os
seus condomínios, mas moradores comuns: “Há muitos condôminos que precisam fazer
um intensivo de como viver em condomínio, pois não têm a menor noção do que é morar
em um empreendimento, de seus direitos, deveres e responsabilidades e do quando o
espírito de coletividade e colaboração se faz necessário para que haja harmonia, respeito e
qualidade de vida. Os vídeos têm o propósito de tratar, com leveza e bom humor, de temas
que podem ajudar síndicos, condôminos e também funcionários a lidar com as questões do
dia a dia da vida em comunidade”, diz Catarina.

Ela ressalta que o trabalho no canal já lhe ajudou a tomar decisões no seu dia a dia como
síndica. “Há temas abordados em que fui atrás de informações para complementar e dar a
melhor orientação para quem acompanha o canal. Também fiz entrevistas com advogados
especialistas em condomínios para falar de assuntos mais complexos, que envolvem
legislação e regras, como destituição de síndico. Recebo, também, várias dúvidas por meio
de comentários ou mensagens privadas e esta foi uma forma segura de esclarecer algumas
delas”.

É PRECISO DETERMINAR O HORÁRIO DE USO DAS REDES PELOS FUNCIONÁRIOS
Apesar de tanta desenvoltura com a tecnologia, a síndica Catarina Anderáos decidiu utilizar
o WhatsApp dentro do seu condomínio há apenas um mês, depois de conversar com outros
síndicos e com a administradora do seu prédio. “A primeira medida foi providenciar um
termo de responsabilidade pelo aparelho que fica com o zelador, onde também consta o
horário em que o mesmo é usado por ele, dentro de seu expediente, para não configurar
que ele está em disponibilidade 24 horas por dia, o que poderia acarretar em horas extras.
Então o aparelho fica desligado fora do expediente”, explica.

Catarina destaca, ainda, que enviou um comunicado aos condôminos informando sobre o
novo canal de comunicação com o zelador e do horário que ele passou a receber e
responder as mensagens, sempre de acordo com a prioridade e sua disponibilidade. “Esta
foi uma forma de agilizar o contato e também despertar o espírito colaborativo nos
moradores, para que eles auxiliem na zeladoria do empreendimento, por exemplo,
apontando locais onde há lâmpadas queimadas, lixo descartado de forma incorreta,
problemas nas áreas comuns, equipamentos que necessitam de manutenção entre outros
assuntos. Às vezes pode demorar um pouco para o zelador se dar conta da questão e o
morador pode ver e proativamente já encaminhar para ele, inclusive documentado com
foto”, diz a síndica.

CAUTELA É ESSENCIAL PARA EVITAR PROBLEMAS NA JUSTIÇA
Que as redes sociais são grandes aliadas dos síndicos para lidar com o dia a dia no
condomínio, não restam dúvidas. É preciso, no entanto, ter sempre muita cautela para evitar
aborrecimentos e até mesmo processos judiciais. De acordo com a advogada Cátia Vita,
especialista em Direito Imobiliário, é cada vez mais comum na justiça processos envolvendo
o uso inadequado dessas ferramentas. “Por ser um ambiente informal de troca de conteúdo
e informações, algumas pessoas acabam se utilizando dessas redes para difamar ou brigar.
Ou seja, falta de compreensão e de respeito às opiniões alheias fazem com que as redes
sociais, sobretudo o Facebook, se tornem muitas vezes um campo de batalha, gerando
inclusive processos tanto na esfera civil como penal”, explica a especialista.

Ela ressalta que, caso um morador se sinta exposto por alguma mensagem nesses grupos,
ele pode processar o síndico e inclusive o condomínio em busca de uma reparação. “Cada
vez mais, conteúdos como mensagens, áudios e até vídeos trocados em redes sociais são
utilizados com provas judiciais. Não é recomendado, também, que se envie notificações e
advertências por meio das redes sociais, mas, sim, por e-mail ou carta, para evitar qualquer possibilidade de constrangimento”, conclui.