Rio de Janeiro, 27 de julho de 2018

Para o dinheiro não evaporar ou escorrer pelo ralo

Reuso e captação de água da chuva são medidas que trazem economia e valorização ao condomínio Continue lendo

reuso de agua
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Gabriel Menezes

Seja por uma questão de consciência ambiental ou simplesmente por economia, o uso e até o reuso da água é uma questão que, cada vez mais, vem deixando de ser apenas um diferencial para tornar-se um pré-requisito para os condomínios que buscam ter uma boa valorização de mercado, tanto comerciais quanto residenciais. E, aqueles que acham que é preciso gastar uma enorme fortuna para adaptar a sua edificação, estão enganados. Com cerca de R$ 1.500, o síndico já consegue implantar medidas que ajudam a evitar que a água (e o dinheiro) do seu condomínio escorra pelo ralo. A afirmação é do especialista Marcos Casado, diretor-técnico e comercial da Sustentech, empresa especializada em soluções sustentáveis para edifícios e empreendimentos. “O primeiro passo para conseguir a redução do desperdício de água é fazer campanhas educativas e de conscientização dos moradores. Além disso, existem equipamentos, como arejadores para torneiras, restritores de vazão para chuveiros ou duchas, torneiras de fechamento automático e vasos sanitários com duplo fluxo de três e seis litros por descarga, que têm os custos de implantação razoavelmente baixos”, afirma Casado.

A partir daí os moradores podem pensar, também, em investimentos mais amplos, como o aproveitamento da água da chuva e o tratamento das águas cinza (proveniente dos chuveiros e lavatórios) e negra (utilizada na bacia sanitária). “Com um sistema completo, que pode custar em torno de R$ 50 mil, a média de economia gira em torno de 40%. Mas, já tivemos condomínios que atingiram até 60% de redução. Quanto ao retorno do investimento, o tempo médio é de três anos, mas, também já tivemos casos em que em seis meses praticamente todo o dinheiro gasto com os equipamentos de uso e reuso de água já havia sido recuperado pelos moradores”, destaca o especialista, ressaltando que, dependendo da estratégia escolhida pelo cliente, a implantação pode levar de três dias até um ano para ser concluída.

Outra opção é a locação de uma estação de tratamento de água ou esgoto compacta, que pode ser utilizada tanto para águas captadas das chuvas quanto para águas cinzas e negras. Várias empresas no mercado oferecem o serviço, e os preços variam de acordo com o modelo e o tempo de utilização necessários.

 

APÓS INVESTIMENTO, SHOPPING ECONOMIZA QUATRO MILHÕES DE LITROS DE ÁGUA POR MÊS

Inaugurado em dezembro de 2013, o Shopping Metropolitano Barra, na Barra da Tijuca, possui mais de 200 lojas numa área de 45 mil metros quadrados, além de um jardim vertical de 1.600 metros quadrados, com espécies como bromélias e zebrinas. E, como em qualquer condomínio, os empresários do empreendimento precisam ratear as despesas mensais. Por isso – principalmente levando em conta a crise econômica que o país enfrenta -, a redução no consumo de água transformou-se numa das prioridades. “Atualmente, utilizamos a água de reuso proveniente do tratamento do esgoto sanitário gerado no próprio shopping center. Com isso, reduzimos bastante o volume de água potável consumido. Além disso, todas as nossas torneiras possuem arejadores e redutores de vazão, possibilitando uma economia incremental. Mensalmente, economizamos cerca de 4000 metros cúbicos de água, ou seja, 4.000.000 de litros”, conta a superintendente do shopping, Daniela Paladini, ressaltando que a água representa 35% dos gastos mensais com a infraestrutura do negócio.

Segundo ela, nem sempre foi assim. Quando o shopping foi inaugurado, não havia todo esse sistema. “Com o passar do tempo, a estação de tratamento de esgoto foi sendo montada e começamos a fornecer água de reuso para as nossas bacias sanitárias e a irrigação do jardim vertical. A partir do final do ano passado, começamos, também, a utilizar água de reuso para o sistema de ar condicionado do shopping”, explica a profissional.

Questionada sobre quais dicas daria para o gestor de um empreendimento que também esteja pensando em investir na diminuição do consumo de água potável, Daniela afirma: “As principais medidas que eu indico são, primeiramente, a avaliação dos padrões de consumo do empreendimento, seja ele novo ou já em funcionamento, e, em seguida, a proposição de estratégias de redução de consumo e obtenção de água a partir de fontes de menor custo”.

 

FALTA DE ÁGUA É UM PROBLEMA QUE DEVE SE AGRAVAR

O consumo de água aumentou de forma considerável em todo o planeta ao longo dos anos e, o que se observa é, cada vez mais, uma intensa redução nos índices pluviométricos, que associados ao uso irracional, tem prejudicado de forma significativa a oferta para o abastecimento público.

Segundo um relatório das Organizações das Nações Unidas, a escassez de água afetará dois terços da população mundial no ano de 2050, e as medidas e ações para reverter esse quadro devem ser tomadas o quanto antes. O reuso e a captação de água da chuva são soluções que contribuem para gerenciar esse recurso de forma mais eficiente e consciente, contribuindo para a redução da pegada hídrica.

“Atualmente, é possível encontrar no mercado sistemas de cisternas mais eficientes, compactos e de fácil manutenção, além de sistemas integrados de gestão e automação que permitem a captação, armazenamento e toda a distribuição de água.  Por exemplo, existem cisternas verticais modulares personalizadas e de diversos formatos e tamanhos, muitas confeccionadas inclusive em material totalmente reciclado, que permitem ao usuário a expansão do armazenamento de água da chuva e diversas novas possibilidades”, explica Agatha de Carvalho, coordenadora técnica do Green Building Council Brasil (GBC-Brasil), uma organização não governamental que visa fomentar a indústria de construção sustentável em todo o país.

Segundo ela, o Brasil vem destacando-se com relação a esse tema. O país ocupa, atualmente, a quarta posição num ranking de 166 outras nações que possuem a Certificação Leed – que é concedido pela matriz mundial da GBC para construções sustentáveis que respeitam os critérios de racionalização de recursos hídricos e energéticos – atrás apenas de Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e China. Por aqui, são 1.292 projetos registrados e 482 certificados. Além disso, há uma perceptível expansão no setor residencial com a certificação GBC Casa e Condomínio, que possui foco na saúde e bem-estar dos moradores e o alinhamento entre eficiência e qualidade.

Hoje, esse segmento possui 52 projetos registrados e oito já certificados. “Temos hoje no Brasil exemplos bem interessantes, como um empreendimento em Curitiba, certificado com LEED Platinum, que é autossuficiente em água em energia, e o condomínio residencial Terra Mundi, em Goiânia, certificado GBC Condomínio nível verde, já que reduziu cerca de 30% do consumo de água utilizando estratégias como captação pluvial e tratamento de água para reuso, utilizando a água cinza tratada nas bacias sanitárias, irrigação, lavagem de carros e limpeza de área comum”, afirma a coordenadora técnica da GBC.

Com o crescimento de empresas que atuam com soluções para o reuso e captação de águas pluviais, Agatha afirma que a tendência é que os custos sejam cada vez menores e o retorno do investimento, mais rápido. “Considerando edifícios existentes, a necessidade pelo retrofit e modernização do sistema faz com que esse retorno seja percebido ainda mais rapidamente, pois é possível verificar e medir a economia e aumento de eficiência. De toda forma, é interessante realizar estudos de viabilidade e balanço hídrico para identificar as melhores soluções para a gestão integrada das águas”, afirma a profissional, ressaltando que existem, também, empresas de consultoria para uso eficiente de água que realizam estudos de viabilidade técnica e econômica analisando as estimativas de consumo, investimentos necessários, períodos de retorno e custos de operação, o que contribui com a identificação das melhores práticas e soluções.

 

SOBRE CAPTAÇÃO E REUSO DE ÁGUA, O SÍNDICO PRECISA SABER QUE:

  • Segundo um relatório das Organizações das Nações Unidas, a escassez de água afetará dois terços da população mundial no ano de 2050, e as medidas e ações para reverter esse quadro devem ser tomadas o quanto antes.
  • O primeiro passo para conseguir a redução do desperdício é fazer campanhas educativas e de conscientização dos moradores. Além disso, existem equipamentos, como arejadores para torneiras, restritores de vazão para chuveiros ou duchas, torneiras de fechamento automático e vasos sanitários com duplo fluxo de três e seis litros por descarga, que têm os custos de implantação razoavelmente baixos.
  • Com um sistema completo, que pode custar em torno de R$ 50 mil, a média de economia gira em torno de 40%. Quanto ao retorno do investimento, o tempo médio é de três anos.
  • Atualmente, é possível encontrar no mercado sistemas de cisternas mais eficientes, compactos e de fácil manutenção, além de sistemas integrados de gestão e automação que permitem a captação, armazenamento e toda a distribuição de água.
  • Outra opção é a locação de uma estação de tratamento de água ou esgoto compacta, que pode ser utilizada tanto para águas captadas das chuvas quanto para águas cinzas e negras.
  • O Brasil ocupa, atualmente, a quarta posição num ranking de 166 outras nações que possuem a Certificação Leed – que é concedido pela matriz mundial da organização não governamental GBC para construções sustentáveis que respeitam os critérios de racionalização de recursos hídricos e energéticos – atrás apenas de Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e China. Por aqui, são 1.292 projetos registrados e 482 certificados.