Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2018

‘Huuum… Acho que vou ficar em casa mesmo’

Cresce o interesse por varandas nas unidades e, ao mesmo tempo, esses ambientes se tornam cada vez mais versáteis para atender à demanda da população, que tem
preferido passar os momentos de lazer em casa Continue lendo

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Mario Camelo

As famosas desculpinhas para a preguiça de sair de casa nunca tiveram tanto sentido.
Vivemos em uma cidade ocupada por uma intervenção federal de Segurança Pública.
O Rio de Janeiro registrou 15 homicídios dolosos por dia, de janeiro a abril de 2018,
segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ). De acordo com
o instituto, em março deste ano, também foram roubados 5,5 mil automóveis apenas
na cidade. Os dados são alarmantes, e diante de um cenário como esse, muitas
pessoas têm optado por ficar em casa e aproveitar os momentos de lazer com os
amigos e a família na boa e velha tranquilidade do lar.

Ambiente queridinho dos moradores
Por isso, o investimento nas varandas das unidades passou a ser frequente, segundo
especialistas do mercado, construtoras, arquitetos e outros profissionais. Seja na
transformação do espaço em um ambiente gourmet, integrando o cômodo à sala ou
simplesmente incrementando em um ambiente de descanso, as varandas são o novo
“mood da estação”. Equipados muitas vezes com churrasqueiras, geladeiras e até ar-
condicionado, esses espaços viraram os queridinhos dos moradores, que o utilizam
para admirar a vista, relaxar, estudar e até mesmo trabalhar. Além disso, eles também
ajudam na valorização dos imóveis.

E se antes essa infraestrutura era uma exclusividade de imóveis de alto padrão, agora
as unidades de empreendimentos mais básicos também estão sendo construídas com
muito capricho nas varandas, que se tornaram espaços obrigatórios para receber os
amigos com pompa e circunstância na hora do churrasco, por exemplo, uma reunião
muito tradicional no Brasil. Para se ter uma ideia, até mesmo alguns dos
empreendimentos do programa de habitação federal “Minha Casa, Minha Vida”,
conhecidos por apresentarem opções mais simples de imóveis, acabaram aderindo à febre das varandas, lançando unidades em 2017 e em 2018 com varandas gourmet, por exemplo.

A verdade é que as construtoras já descobriram esse filão, tanto que vêm investido
cada vez mais nessas possibilidades, atendendo à procura dos seus futuros
moradores. Segundo dados de 2017 de uma instituição imobiliária, que possui a
maioria das suas unidades localizadas no Recreio e na Barra da Tijuca – bairros
conhecidos por seus enormes condomínios – 80% dos lançamentos naquele ano
contavam com varanda, um recorde até então.

Sendo assim, a varanda pode ter a cara que o proprietário quiser, mas, logicamente, a
configuração de uma varanda gourmet, por exemplo, está diretamente ligada às
necessidades e ao orçamento dos proprietários do apartamento. De acordo com essa
premissa, abre-se um leque de opções que pode variar de um espaço zen de
relaxamento, passando por um local com muitas plantas e jardins, até uma mini-área
de lazer com churrasqueira, frigobar, mesas de jogos e espaço para fondue. Nessa
hora, a criatividade vai longe, afinal, com um bom orçamento, nenhuma varanda tem
limites. Mas mesmo com um orçamento um pouquinho mais apertado, é possível
transformar a “varandinha” num ambiente agradável.

A arquiteta Noemi Fonseca confirma que houve um aumento significativo na procura
por projetos de varandas gourmet, por exemplo, especialmente na região da Barra da
Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. Ela conta ainda que há uma nova tendência de
projetos que integram a varanda com outros ambientes como a sala de estar, a sala
de televisão e (por que não?) a sala de jantar, criando uma grande área de lazer
dentro da própria unidade. “Houve um aumento considerável na procura por projetos
como esses. O ponto principal apontado pelos condôminos é a questão da segurança
no Rio de Janeiro, sem dúvidas. Ter um bom espaço para receber os amigos e a
família se torna essencial na vida do carioca. O próprio estilo de vida do habitante do
Rio está muito relacionado à interação, receber amigos e socializar”, opina.

A arquiteta comenta que os projetos costumam variar bastante. “Depende muito da
necessidade de cada cliente, mas todos sem exceção não abrem mão do conforto e
da funcionalidade. O projeto tem que fazer sentido para o morador/moradores, então
cada projeto acaba sendo único. No entanto, existem algumas tendências que fazem
sentido para muitos, como por exemplo os famosos jardins verticais, também
conhecidos como "paredes verdes". Esses são pedidos bem comuns, pois o verde é realmente reconfortante para muitas pessoas, o que tem tudo a ver com a ideia de um ambiente de descanso como a varanda”.

Antes de reformular a varanda, verifique o que é permitido
Em um dos seus projetos mais recentes, Noemi conta que o cliente solicitou algo que
pode parecer inusitado, mas que está se tornando mais comum do que imaginamos:
uma unificação da sala de estar com a área da varanda, criando uma grande área
gourmet com até mesmo uma mesa de sinuca. “Nesse caso, utilizei pequenos
artifícios para destacar os ambientes, como uma sutil separação de piso entre eles,
pisos diferentes, uma "parede" de plantas penduradas etc. Foram criados pequenos “bloqueios”, mas sem deixar que os ambientes percam a integração. Essa é uma boa solução até mesmo para quem tem varandas pequenas”, afirma ela.

A opinião é compartilhada pela arquiteta Fabi Calvo, que também já criou diversos
projetos para transformar varandas simples em espaços gourmet. “A versatilidade é o
grande segredo desses ambientes. Um ponto que também chama a atenção quando
pensamos nesses espaços são as varandas fechadas com cortina de vidro, que se
tornaram muito populares, uma vez que podem se integrar completamente ao
ambiente. Os móveis podem seguir a linha do interior, por exemplo, e pode ter ar-
condicionado para os dias mais quentes”, sugere.

A procura por varandas também pode variar de acordo com a região da cidade. Na
Zona Sul é raro ter imóveis com varanda, portanto a grande maioria dos condôminos
dessa região valoriza as áreas internas no imóvel, como outro cômodo ou o banheiro,
por exemplo. No caso de lançamentos nesses bairros, a maioria inclui sim as
varandas, porém elas são pequenas, quase como sacadas, valorizando o espaço
interno.

Os que estão à procura de novas unidades ou de apartamentos com ambientes como
esses devem prestar atenção em alguns pontos, como por exemplo, se há dutos para
a dissipação de ar, caso exista a intenção de instalar churrasqueiras, fornos ou fogões
à lenha na varanda.

Regras quanto ao que é permitido ou o que não é na fachada também devem ser
estudadas, bem como as regras das convenções dos condomínios. Se o objetivo for a
prática de jardinagem com instalação de um jardim vertical, por exemplo, também é
preciso checar previamente a estrutura da unidade, a localização ideal para a instalação, e também é recomendável se certificar de que o espaço seja instalado corretamente para não gerar futuras infiltrações nas paredes e, consequentemente, indisposições com os vizinhos, afinal, a varanda é para relaxar e não para trazer brigas e confusão para os condôminos.
Nova legislação permite envidraçar varandas
Um tema que sempre causou muita polêmica quando se fala em varanda é o
fechamento com vidros. A legislação municipal do Rio de Janeiro possui algumas
regras sobre a sua aplicação. Mais recentemente, a Zona Sul da cidade, que estava
fora da lei original de 2014, foi incluída na última alteração, pela lei complementar
184/2018, aprovada no final de março de 2018. A alteração impõe novas regras. Além
disso, foi revogada a obrigatoriedade do pagamento da quantia de R$300, por metro
quadrado, para a regularização da instalação.

Os síndicos devem se informar sobre as alterações e sobre o funcionamento das
regras com advogados e com a administradora do condomínio. Em suma, o
condomínio pode optar por aprovar em assembleia um projeto ou especificações
padrão que sirvam a todas as varandas, ou pode deixar por conta de cada proprietário
escolher os seus respectivos detalhes. Caso a convenção do condomínio proíba o
fechamento, o síndico não tem como autorizá-lo, e nem a assembleia pode aprovar a
modificação na fachada. Neste caso, será necessário alterar a convenção antes de
qualquer outro passo para a obra.