Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2018

Condomínio doente

Seu condomínio pode estar adoecendo você e seus vizinhos. Saiba como identificar e evitar a Síndrome do Edifício Doente. Continue lendo

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Aline Durães

Não. Você não leu errado. O condomínio pode comprometer sua saúde e dos demais
condôminos. O ser humano urbano passa, em média, de 80% a 90% de sua vida em
ambientes fechados, sejam eles casas, apartamentos ou escritórios e já foi
comprovado que, dependendo da forma como foram construídos e são mantidos
esses locais, diversas doenças podem ser desencadeadas pela convivência neles.
Foi em 1982 que o assunto veio à tona pela primeira vez. Após a morte de 182
pessoas hospedadas em um hotel na Filadélfia, Estados Unidos, investigações
concluíram que a causa da tragédia era uma só: a bactéria Legionella pneumophila
que, contaminando o ar do hotel, adoeceu e matou seus hóspedes. Antes disso, com
menos alarde, em 1968, a mesma bactéria havia infectado 114 pessoas no prédio do
departamento de Saúde da cidade de Pontiac, em Michigan, também nos Estados
Unidos. Baseada nesses episódios, a Organização Mundial da Saúde reconheceu, no
início dos anos 1980, a existência da chamada Síndrome do Edifício Doente (SED).

De forma sucinta, a SED é um conjunto de enfermidades causadas por
microorganismos infecciosos e partículas químicas em prédios fechados. Para que o
condomínio seja considerado doente, é necessário que pelo menos 20% de seus
ocupantes apresentem problemas de saúde decorrentes da permanência no espaço.
Na síndrome, os sintomas se suavizam ou somem após os pacientes se afastarem do
prédio. De acordo a revista Environmental Health, até 60% dos habitantes de
ambientes doentes apresentam complicações severas decorrentes da exposição
prolongada à síndrome. “As construções atuais são pensadas pela ótica da estética,
da funcionalidade e do conforto apenas. Esquecem de premissas básicas para o bem-
estar e saúde do ser humano, como os ciclos de luminosidade de dia e escuro à noite e a qualidade do ar, por exemplo. Com isso, geram uma série de sintomas e doenças”, alerta Allan Lopes, biólogo da construção e CEO da sede brasileira do Instituto Mundial de Construção Saudável (Healthy Building World Institute).

Atuando na área há muitos anos, o que não faltam a Allan são exemplos de
construções doentes. Para ele, o caso mais significativo ocorreu em um prédio
residencial de luxo em Belo Horizonte. “O prédio estava muito próximo a uma antena
de celular, que emitia níveis de radiação acima dos permitidos pelos padrões
internacionais. Acredita-se que, entre os efeitos dessas radiações, estão alterações
nos padrões de sono, memória e aumento na produção de radicais livres. Para
resolver, imantamos a fachada para refletir a radiação, além de sugerir que os
moradores usassem cortinas com fios de prata, igualmente reflexivos”, compartilha.
Síndico do Vila Franca, com 11 unidades, na Tijuca, Inocêncio Alves já ouviu falar da
Síndrome e, embora nunca tenha enfrentado problemas relacionados a ela, não se
descuida da busca por saúde e qualidade de vida em sua unidade. “Usamos filtros
para limpar a água que vem da rua e, periodicamente, especialmente no verão,
conscientizamos moradores sobre os perigos da falta de manutenção do ar
condicionado e do mau descarte do lixo”, conta.

Novos e Antigos – ninguém está imune
Para os especialistas, a incidência de doenças ligadas à moradia é um fenômeno
contemporâneo provocado, em grande parte, por mudanças nos padrões de
arquitetura e construção. Isso porque, nos anos 1970, em função da crise energética
mundial, os prédios passaram a ser projetados com aberturas menores para
ventilação, o que, se por um lado, reduziu o gasto de energia na refrigeração do ar,
por outro, gerou pouca troca de oxigênio com o ambiente externo, comprometendo a
qualidade do ar.

Na opinião do geobiólogo Marcos de Almeida, o que se perdeu com o tempo foi a
capacidade de o ser humano perceber as mudanças de ambiente. “Em todas as
épocas, sofremos as anomalias nocivas existentes nos locais de moradia. A diferença
é que, em tempos remotos, éramos nômades e tínhamos uma percepção mais
apurada para identificar os locais doentes. Nós, os modernos, perdemos essa
sensibilidade”.

Além dos edifícios fechados, as unidades escuras também são mais propensas a
desenvolver a SED. A luz solar é essencial no combate a bactérias, fungos, ácaros e outros microrganismos. Engana-se quem pensa que a Síndrome do Edifício Doente acomete apenas unidades antigas. Nas construções recentes, o ar é altamente composto por elementos voláteis, oriundos de colas, tintas, materiais de construção e de mobiliário, favorecendo a ocorrência de SED. A tendência é que, ao longo do tempo, essas partículas se dissipem e a qualidade do ar melhore, mas, em alguns casos, erros de projeto, falta de manutenção do sistema de climatização ou uso de filtros inadequados podem levar o espaço a ficar permanentemente doente.

Já nos condomínios antigos, as principais causas de doenças coletivas são
acumulação de poeira, bolor, umidade nas paredes e de contaminantes químicos e
biológicos nos sistemas de refrigeração.

Além das contaminações química e biológica, fatores físicos também podem
influenciar a saúde de um ambiente. “Iluminação e acústica, por exemplo, são
elementos físicos que integram a relação de saúde e bem-estar de um local. Os
campos eletromagnéticos emitidos por torres de alta tensão, antenas de celular,
instalação do próprio edifício e aparelhos eletrodomésticos — ainda que invisíveis —
são parte do mundo físico que pode afetar a saúde do local”, enumera o especialista
Allan Lopes.

Principais sintomas
Como a maior parte dos síndicos desconhece a existência da SED, o diagnóstico do
condomínio doente é difícil, e os casos são subnotificados. Na visão de Allan, a
principal ferramenta para a identificação de doenças coletivas é o conhecimento. “O
primeiro passo é a consciência sobre o tema. Quando sabemos que a síndrome
existe, nossa observação dos fatos passa a incluir esta possibilidade”, afirma.
No geral, os sintomas da SED são sentidos especialmente nos olhos, com irritação,
sensibilidade, dor, secura e coceira; nas vias respiratórias, por meio de coriza,
dificuldades respiratórias, agravamento de asma, rinite e irritação da garganta; e pele,
que envolve alergias e dermatoses no geral. “Para identificar a SED, é preciso
observar principalmente dois fatores: 1) Muitos sintomas desaparecem quando nos
afastamos da edificação, o que indica uma relação de causa e efeito entre os eles e o
edifício. 2) A coletividade é afetada, ainda que de formas distintas. Muitas vezes, os
sintomas são de médio e longo prazo e não é possível estabelecer uma relação clara
entre eles. Por isso, é importante conversar. Conhecer e falar sobre a SED ajuda as
pessoas a reportarem sintomas diversos, como falta de energia, dificuldades de acordar de manhã cedo, sistema imunológico com baixa atuação. Tudo isso pode levar à suspeita de síndrome do edifício doente”, explica Allan Lopes.

Condomínio saudável
Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando como pode deixar o condomínio
saudável e longe dos perigos da SED. A boa notícia é que, por meio de medidas
simples e manutenção preventiva, é possível garantir a segurança e bem-estar dos
condôminos e familiares. No caso da qualidade do ar, por exemplo, uma dica eficaz é
higienizar os dutos dos sistemas de ar e optar sempre por filtros de alta eficiência,
substituindo-os periodicamente. Outro ponto merecedor de atenção é o controle de
animais e pragas para evitar a proliferação de fungos perigosos. Clorar as fontes de
água também é importante na medida em que elimina a formação de colônias de
bactérias. “A melhor opção é a profilaxia, ou seja, fazer uma análise técnica do prédio
e suas unidades de forma prévia para determinar se há ou não um risco de se
desenvolver a SED ali e identificar as medidas a serem adotadas para reduzir esta
possibilidade”, salienta Allan.

A empresa de Allan desenvolveu um selo para atestar a saudabilidade de projetos,
residências e edificações. O Selo de Casa Saudável, como é chamado, é o primeiro
certificado desse tipo no mundo e tem como missão assegurar espaços saudáveis que
proporcionem bem-estar para a sociedade. “Vale a pena investir nas pessoas, sua
saúde, bem-estar e qualidade de vida. Averiguar um local quanto à SED é uma ação
importante por si só e serve como ferramenta de marketing junto aos usuários. A
certificação traz confiabilidade ao trabalho que foi feito”, explica Allan.

Independentemente de certificação, além de melhorar a convivência e a saúde da
coletividade condominial, uma unidade saudável pode, inclusive, valorizar os imóveis
que a compõem. “Fica mais fácil vender um apartamento em um condomínio analisado
por especialista e com a chancela de ser um local isento de anomalias e saudável”,
finaliza o geobiólogo Marcos de Almeida.