Rio de Janeiro, 9 de maio de 2017

Na linha de frente

Personagem mais popular dentro do condomínio, a figura do porteiro resiste ao tempo e busca renovação Continue lendo

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Cintia Laport

De acordo com a Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores de Edifícios e Condomínios, o dia 9 de junho seria a data comemorativa para essa classe profissional, os porteiros. No entanto, no Rio de Janeiro, a Lei nº 8, de 1975, decreta e oficializa o dia 25 de junho como o dia do porteiro de condomínio na cidade. E ainda há aqueles que acreditam que o ideal mesmo seria comemorar no dia 29 de junho, em homenagem a São Pedro, consagrado como o “porteiro do céu”. Controvérsias à parte, o fato é que, com o passar dos anos, o perfil desse profissional foi se modificando bastante e adaptando-se às novas necessidades da vida em condomínio.

Discrição acima de tudo

Se antes ele poderia apenas representar o primeiro contato do visitante ao chegar em um condomínio atribuindo-lhe as boas-vindas, hoje é também peça fundamental em diversos aspectos, seja na segurança ou até mesmo na gestão, como apoio ao próprio síndico, sendo seus olhos no dia-a-dia.

Cristiano Carvalho, do Condomínio Eugênio Jardim, em Copacabana, tem 39 anos de idade e há pelo menos 19 deles atua como porteiro de condomínio. Segundo ele, já passou por algumas situações difíceis ao longo de todo esse tempo, mas faz questão de orientar que ouvir mais e falar menos é uma das principais recomendações que faria aos profissionais de portaria. “Nós nos relacionamos o tempo inteiro com várias pessoas, sejam moradores, visitantes ou fornecedores. Pessoas diferentes, com pensamentos diferentes, então o ideal é que estejamos sempre tranquilos, discretos e objetivos em nossa atividade, bem como preparados para agir em caso de necessidade”, diz.

Segundo ele, é um erro o porteiro que acha que a sua atividade se restringe à portaria apenas. “Já vi casos de profissionais que não se interessam por nada, não querem conhecer o condomínio por dentro, sua estrutura. E se der algum problema? É para a portaria que as pessoas irão ligar no caso de algo extraordinário acontecer. Não precisa efetivamente você saber fazer, mas precisa saber contornar a situação enquanto outro profissional não chega para resolver”, orienta. Cristiano diz que, apesar da experiência e de ter participado do treinamento de alguns profissionais, continua aprendendo a todo momento. “Na minha opinião, tão grave quanto aquele que não se interessa por nada é aquele que guarda tudo para si com medo de ser substituído. Isso não existe. Acredito que tudo deva ser compartilhado entre a equipe, pois o objetivo maior é sempre zelar pela segurança dos moradores e a valorização do patrimônio”, assegura.

Visão integrada, sim, mas a defesa dos gestores condominiais é por uma atuação focada e centralizada tamanha a sua posição estratégica. Isso porque um dos pontos polêmicos em relação ao cargo de porteiro está relacionado ao acúmulo de função. Como estamos falando daquela pessoa mais acessível, que está sempre à vista dos moradores, é justamente a mais acionada para resolver inúmeras atividades na rotina condominial. Um dos mais frequentes impasses é a execução de simples reparos, sejam nas áreas comuns ou até mesmo dentro das unidades, ou então pequenos favores.

O ideal, segundo os especialistas, é que o porteiro não seja retirado da portaria em nenhuma circunstância durante a sua jornada de trabalho, ainda que outra pessoa o substitua nesses momentos. Isso porque, além do quesito segurança, há ainda o direito de não lhe ser exigidos conhecimentos específicos para os quais não foi contratado. Em outras palavras, da mesma forma que sua função não é resolver uma pane elétrica, também não lhe é atribuída a atividade de carregar sacolas dos moradores e nem mesmo manobrar carros na garagem.

De pai para filho

Recebimento e distribuição da correspondência aos moradores, autorização de acesso ao condomínio e o zelo pela ordem condominial são as principais responsabilidades de um porteiro. Na hora das cartas e encomendas, cabe a ele o recebimento e aviso aos moradores sobre a sua chegada, posteriormente protocolando e colhendo a assinatura dos destinatários após coleta. Nunca permitindo a entrada de estranhos no condomínio, seja para entregar uma simples carta ou mesmo uma pizza. A recomendação mais acertada é que o morador desça até a portaria para buscar o seu pedido pessoalmente. Bom senso também no quesito controle de entrada e saída de pessoas estranhas, como visitantes ou fornecedores para a execução de serviços diversos. Convém avisar a portaria com antecedência e, após a chegada da pessoa para identificação, ele deverá ligar para o morador em uma nova confirmação e só depois liberar a entrada. A medida é válida, inclusive, para externos que visitam o condomínio com frequência, como profissionais da faxina. A última responsabilidade está relacionada ao cuidado de tudo o que se passa dentro do condomínio de uma forma geral. Caso haja qualquer anormalidade, como confusão, briga, interdição de área, elevadores fora de funcionamento etc. será o porteiro a peça-chave para acionar o síndico, demais pessoas ou empresas que irão ajudar na resolução do problema.

Porteiro do Condomínio Afrânio de Mello Franco, Fábio Bezerra, é mais um que acumula histórias para contar ao longo dos seus 23 anos de experiência na função. Uma profissão que veio de berço, já que seu pai, Heronildes, também é síndico de condomínio – no seu caso, já há mais de 40 anos, e ainda contando pois continua em plena atividade. “Foi meu pai que me trouxe para essa vida de porteiro. Tenho muito orgulho do que eu faço, sabe, mas digo que a minha rotina não é nada fácil. Muitas pessoas não entendem nossa responsabilidade e isso acaba desgastando o relacionamento”, relata ele, referindo-se em especial às regras que precisa cumprir em relação ao acesso de pessoas estranhas ao condomínio e que nem sempre são bem aceitas pelos condôminos.

Fábio ainda faz parte do grupo de funcionários que, além de trabalhar, também mora dentro do condomínio, o que, segundo ele, faz toda a diferença no seu dia-a-dia. “Eu não consigo me desligar, pois o porteiro é aquele que fica na linha da frente, não tem como ser diferente. Isso significa que, quando não estou portaria, a qualquer momento posso ser acionado para ajudar a resolver alguma coisa mesmo estando dentro de casa. É preciso muito jogo de cintura para saber dosar bem entre a vida profissional e a pessoal”, lamenta o porteiro, que luta para reservar um tempinho especial para a família.

Na busca em manter um ambiente saudável que contribua favoravelmente para a rotina dos porteiros, de forma a estimular não apenas sua produtividade, mas a autoestima deste profissional, cabe ao síndico investir em benefícios e ainda em condições mais agradáveis para a execução desta atividade (leia mais no box). Outra recomendação relevante são os cursos oferecidos de tempos em tempos, como forma de fortalecer a padronização no atendimento, bem como atualizá-los sobre as informações mais recentes de mercado. Invista sempre nesse profissional, ele é a porta de entrada do seu condomínio.

 

 

Invista na formação

O Secovirio oferece vários cursos destinados aos porteiros de condomínio, entre eles o de Qualidade nos Serviços de Portaria. Entre os tópicos que são abordados no programa, citamos: a importância na função do porteiro; rotinas operacionais da portaria; relatório de registro; habilidades comportamentais no exercício da função; como lidar com o idoso no condomínio; comunicação eficaz; higiene e apresentação pessoal etc. O curso tem carga horária de 15 horas e a próxima turma terá início no dia 26 de junho, com aulas das 9h30 às 13h15. Para mais informações, acesse o site do Secovirio: www.secovirio.com.br ou pelo telefone (21) 2272-8000.

 

Para o porteiro trabalhar melhor

  • Cuide para que o ambiente da portaria seja um local sempre limpo, bem ventilado e seguro para o porteiro, já que sua posição é estratégica para a segurança de todos;
  • A instalação de uma linha telefônica no local é primordial, além de um caderno com números de telefone para o caso de emergência, seja do síndico ou administradora, ou mesmo da polícia, bombeiros e delegacia mais próxima;
  • Invista em reciclagem periódica para esses profissionais. Um ótimo momento tanto para repassar os procedimentos padrões específicos para o seu condomínio, ou mesmo para atualizá-los sobre boas práticas de mercado;
  • Nunca desvirtue a atividade do porteiro, pedindo-lhe para que saia da portaria em circunstâncias banais;
  • Se identificar a necessidade, faça uma campanha interna com os moradores para que todos colaborem para a atividade do seu porteiro e saibam os reais deveres desse profissional.