Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 2017

Morar e dividir

Tendência nos Estados Unidos e na Europa, os serviços compartilhados chegam ao país e prometem revolucionar a convivência nos condomínios brasileiros. Continue lendo

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Aline Durães

A economia colaborativa chegou aos condomínios. Já começam a ser construídos residenciais que oferecem serviços compartilhados para condôminos e visitantes. Vale tudo: de ferramentas comunitárias a helicópteros de uso partilhado; o importante é reduzir custos e ampliar experiências coletivas.

Apesar de novo por aqui, o conceito já é antigo em prédios da Europa e dos Estados Unidos. Baseado no Home & Share, não poderia combinar mais com o estilo de vida contemporâneo das grandes cidades, onde as pessoas têm pouco tempo e muitas exigências. Ele nasce da necessidade de otimizar espaços, ampliar a praticidade diária e diminuir os custos operacionais de serviços, reduzindo, consequentemente, o preço pago por eles. É a lógica de compartilhamento tão comum em novos modelos de negócio (Ver Box ao final da matéria) aplicada à realidade condominial.

O que pode ser compartilhado
Na prática, no Home & Share, o condomínio passa a disponibilizar, mediante cobrança de taxa de uso ou não, uma série de facilidades coletivas aos moradores. Há aqueles que oferecem bicicletas e carros compartilhados; os mais sofisticados já possuem em sua carta de serviços a opção de uso de helicóptero coletivo.

É o caso do Condomínio Alto da Serra, em Santa Catarina. Em abril do ano passado, ele adquiriu um helicóptero para uso de até 30 proprietários. Cada “sócio” compra uma cota com valor fixo, paga uma taxa mensal de uso, que engloba todas as despesas fixas para manutenção da aeronave, e uma taxa por hora de voo. Os usuários garantem que a praticidade compensa os investimentos realizados.

Mas não são apenas os veículos que compõem o cardápio de serviços compartilhados. A lógica da economia colaborativa vai além: alguns empreendimentos dedicam um apartamento para uso comum dos condôminos. Mediante reserva, o morador pode usar a unidade por tempo determinado para, entre outras coisas, hospedar visitantes, por exemplo. Geralmente, o modelo utilizado é o de propriedade fracionada, ou seja, cada apartamento é dividido em um número determinado de frações abertas à compra dos condôminos. Cada comprador tem um limite máximo de uso. Em alguns casos, por exemplo, o condomínio estipula que o imóvel ficará à disposição de cada co-proprietário por quatro semanas por ano.

Seguindo a mesma lógica, há construtoras que apostam em escritórios coletivos, ou seja, salas de reunião equipadas a serem utilizadas pelos condôminos, conforme disponibilidade e interesse. “A grande vantagem é para o morador. Oferecemos, hoje, em nossos empreendimentos sistemas de guarda-entregas, ou seja, que recebem as compras do morador e contam, inclusive, com geladeiras compartilhadas, para alocar os itens que precisam de refrigeração até a chegada do condômino. Temos salas de coworking, ferramentas compartilhadas — como furadeira, serrote, martelo e escada, além de bikes, motos e carros de uso comum”, explica Alexandre Lafer Frankel, CEO da Incorporadora e Construtora Vitacon. A empresa, que desde 2009 investe em serviços compartilhados em seus empreendimentos, é uma das pioneiras no assunto no Brasil.

Outra construtora que vem apostando alto no conceito é a Gafisa. Ela inovou ao inaugurar, em 2015, o Smart Santa Cecília, em São Paulo. No condomínio, os serviços compartilhados são gerenciados por meio de um aplicativo de smartphone, exclusivo para condôminos, que permite reservar os itens coletivos e, ao mesmo tempo, trocar experiências com os vizinhos. A ideia é que, em breve, por meio do app, os usuários poderão se conectar com outros moradores interessados em dividir novas facilidades, como os serviços de diarista, personal trainer ou professor de idiomas, por exemplo.

Além dos itens já citados, a Gafisa estuda viabilizar empreendimentos que contarão com hortas coletivas, a serem mantidas pelos moradores, e com vans para levar condôminos a shoppings, escolas e outros locais de interesse. “As pessoas estão mais interessadas no direito de uso em vez do direito de posse”, afirma Octávio Flores, diretor de incorporação da empresa, em entrevista ao site da Folha de São Paulo, de 26 de agosto de 2016.

A quem se destina?
Ao ler essa matéria, o síndico pode se perguntar se a lógica da economia colaborativa é possível de ser implantada em seu condomínio. Afinal, todos os ambientes condominiais estão preparados para adotar os tais serviços compartilhados?

Segundo os especialistas, os estudos realizados até aqui mostram que, por enquanto, é o público jovem — solteiros e casais sem filhos —, o mais disposto a compartilhar espaços e dividir serviços. A tendência, entretanto, é que a ideia se espalhe e acabe atraindo novos entusiastas. Quem prova a ideia aprova. “A maioria dos serviços que oferecemos hoje nos prédios em operação é muito bem recebida pelos moradores. Mas o compartilhamento requer um acordo comum entre eles, por isso, nos prédios antigos, eles precisam ser consultados. Mas acredito que há muitas opções e itens que podem ser incorporados”, conclui Alexandre Lafer Frankel, da Vitacon.

Para André Costa, síndico do Montreux, com 60 unidades, na Freguesia, a ideia é ótima. Há quatro meses no cargo, ele enfatiza que está trabalhando em urgências deixadas pela gestão anterior, mas não descarta a possibilidade de, no futuro, vir a propor serviços compartilhados para seus condôminos. “Tive de trocar de administradora, recrutar e treinar novos funcionários. Enfim, outras prioridades acabam ocupando nosso tempo, mas creio que essas ideias, sendo funcionais, legítimas e econômicas, são boas. Com um bom regulamento para utilização e respaldo jurídico, dariam certo em nosso condomínio e teriam apoio dos condôminos”, opina.