Rio de Janeiro, 9 de maio de 2017

Colheita fértil

Alimentação saudável e barata, além de maior integração entre os vizinhos, são algumas das vantagens das hortas comunitárias no condomínio Continue lendo

a-vegetable-garden1 site
tamanho do texto:

Gabriel Menezes

Em tempos em que a procedência e a qualidade dos alimentos consumidos em casa são uma preocupação cada vez maior da sociedade, ter uma horta comunitária pode valorizar um condomínio e fazer a alegria de seus moradores. Além de uma fonte barata e confiável de comida, o espaço também pode ajudar na convivência entre os vizinhos e despertar o interesse das crianças para questões de sustentabilidade.

No Condomínio Fazenda Passaredo, na Taquara, por exemplo, o projeto da horta comunitária foi retomado no ano passado. Ele havia sido interrompido por alguns anos, após a morte do responsável pela ideia original. “Em abril de 2016, um morador iniciou uma horta na sua casa e doou mudas para o condomínio. A partir daí, decidimos retomar a horta comunitária e tivemos uma grande colheita durante o ano”, conta Maria Aparecida França, coordenadora do Centro de Meio Ambiente do condomínio, que tem 340 lotes e cerca de 1.200 moradores.

O Centro foi um grande aliado para que o projeto da horta desse certo. Além de contar com dois funcionários próprios – que já tinham experiência com o cultivo de hortaliças -, o condomínio produz seu próprio húmus e adubo orgânico, o que facilitou o processo. “A produção é feita a partir do material oriundo da limpeza das áreas comuns (varredura), podas de árvores e restos de jardim (corte de grama). Além disso, todas as plantas descartadas dos jardins das residências, que antes eram simplesmente jogadas no lixo da companhia municipal, hoje são recuperadas ou transformadas em matrizes para novos jardins ou comercializadas”, explica Maria Aparecida.

Segundo ela, os moradores ficaram muito empolgados com a produção orgânica, que está sendo feita entre abril e outubro, pois o cultivo durante o verão exige uma estrutura que o condomínio ainda não dispõe. Para o plantio, o Centro faz uma mobilização para a participação das crianças do condomínio, que, ao mesmo tempo em que se divertem, se conscientizam da importância da ação. “Temos oito canteiros grandes com alface, couve, chicória, repolho, brócolis, tomate e temperos dos mais variados. Deixamos os moradores à vontade para colherem o quanto quiserem, mas pedimos sempre que eles peguem apenas a quantidade que realmente irão consumir. Assim, evitamos o desperdício e vai ter para todo mundo”, conclui a coordenadora.

Muito mais do que alimentação saudável, uma área de convivência

Há cerca de um ano, o surfista Carlos Burle, campeão mundial em Ondas Gigantes, decidiu transformar um terreno de sua propriedade no condomínio Vivendas Caça e Pesca, na Barra da Tijuca, numa horta de cerca de 60 metros quadrados aberta aos vizinhos. Logo, oito famílias próximas se entusiasmaram e resolveram entrar de cabeça no projeto. “Foi uma transformação muito interessante no condomínio. As pessoas passaram a se reunir para ver, trabalhar e discutir sobre a horta. Logo, estávamos produzindo mais do que conseguíamos consumir. Colhemos couve, rúcula, sálvia, alface, tomate, cenoura, alecrim e até coco”, conta Burle.

O espaço foi batizado de Good Karma. Uma das paredes recebeu uma intervenção do artista Rafael Uzai, amigo do surfista. Ao lado, uma vizinha pintou a frase “Amor e gratidão”. “Quero fazer agora algumas mudanças no projeto da horta. Como ela cresceu demais, ficou difícil para as pessoas permanecerem no espaço. Minha ideia é diminuí-la, já que a produção está acima do que consumimos, e colocar um ou dois bancos para que as pessoas possam ficar, conversar ou tocar um violão”, afirma o surfista.

Ele conta que passou recentemente três meses no Havaí e levou o projeto da horta para lá. “Tudo que você planta nasce muito fácil. As pessoas precisam, cada vez mais, ter isso em mente e buscar uma alimentação melhor. Quero ter a chance de dar a minha pequena contribuição para isso”, conclui.

Condomínio tem lista de espera para participar da horta

No condomínio Rio2, também na Barra da Tijuca, o projeto da horta foi iniciado em novembro de 2015. A ideia foi apresentada pela engenheira agrônoma Rosana do Espírito Santo, coordenadora da associação de moradores responsável pelo paisagismo e limpeza. “A hortinha inicialmente era voltada para as crianças. Hoje é para todas as idades, mas a maioria ainda são os pequenos. Temos 27 participantes envolvidos com o projeto. Existe uma lista de espera, onde aqueles que se interessarem deixam nome e telefone e de acordo com o surgimento das vagas nós chamamos para fazer a inscrição”, explica.

A área destinada à horta tem cerca 1000 metros quadrados, sendo que cerca de 200 metros quadrados já estão com plantação, entre verduras, temperos, ervas aromáticas e medicinais e algumas árvores frutíferas. “Temos uma rotina, que consiste em regar todos os dias e catar os matos uma vez por semana. Como é orgânica, não existe aplicação de defensivos”, conta Rosana.

Segundo ela, o projeto teve um custo inicial, mas hoje ele praticamente se mantém sozinho, já que os frequentadores fazem doações de sementes e algumas já são produzidas pelo próprio condomínio. “A alface roxa, por exemplo, já fizemos mudas duas vezes das sementes que nós mesmos produzimos na horta. Estamos fazendo também a compostagem, que é bem pequena ainda, mas a maioria dos participantes guarda as casquinhas dos vegetais que consomem e levam para fazermos adubo”, conclui.

 

‘Quanto mais pessoas engajadas com o projeto, mais barato ele fica’

O interesse por hortas urbanas faz com que muitas pessoas busquem cursos para se qualificar e entender melhor sobre esse universo. Na Fundição Progresso, na Lapa, desde 2014 existe um espaço de educação ambiental que vem difundindo a cultura do cultivo em plena cidade: o canto das flores. A equipe da Revista Síndico conversou com os integrantes do coletivo Organicidade, Ricardo Antonio, Alice Worcman e Daniel Gabrielli, responsáveis pelo projeto. Eles falaram sobre o que é preciso para ter a horta num condomínio.

SÍNDICO: Vem aumentando a procura por pessoas interessadas em cultivar os seus próprios alimentos em centros urbanos?

Alice: Sim, a cada dia mais pessoas demonstram consciência sobre o imperativo de uma alimentação saudável, sem venenos ou adubos químicos. O interesse em cultivar plantas em suas casas e, principalmente seus alimentos, é uma tentativa de autossuficiência, de escapar das regras do mercado. Constantemente somos procurados para projetar e executar hortas, jardins, canteiros e prestar consultorias sobre o cultivo urbano, que encontra como principais fatores limitantes a falta de espaço e luminosidade, além de um ecossistema desequilibrado.

 

SÍNDICO: Qual o primeiro passo para se instalar uma horta comunitária num condomínio urbano?

Daniel: Para implementar uma horta comunitária num espaço urbano, como um condomínio, por exemplo, o primeiro passo deve ser uma reunião com os interessados em participar do projeto, sobretudo da manutenção (10% do trabalho está na instalação, os outros 90% nos cuidados permanentes até a colheita), definir o espaço de plantio, estudar o local para escolher bem as espécies de acordo com incidência do sol, ventos, disponibilidade para rega, e o mais importante: o que gostamos de comer.

 

SÍNDICO: Quais soluções criativas podem ser adotadas para instalar uma horta urbana num condomínio que tenha pouco espaço?

Ricardo: São diversas as possibilidades, entre elas podemos destacar as paredes verticais, vasos suspensos, vasos freáticos (que armazenam água no fundo e transferem para o substrato por difusão). Projetos maiores podem considerar telhados verdes também. Os materiais utilizados podem ser reciclados (garrafas pet, galões ou tonéis). Novos usos podem ser dados a materiais que seriam descartados como pallets, vasos sanitários, pias, canos, e até eletrodomésticos quebrados. Vale dar asas à imaginação.

 

SÍNDICO: Existem espécies mais adequadas para uma horta com pouco espaço?

Alice: A escolha de cada espécie deve levar em consideração o espaço que a mesma necessita para o seu desenvolvimento, iluminação e umidade, mas alguns entraves podem ser contornados com a ajuda de consórcios e ocupação de diferentes extratos em um mesmo canteiro. Pensar na funcionalidade de cada uma levando em consideração o ambiente ao redor é sempre importante.

Nós gostamos muito de trabalhar com as plantas alimentícias não convencionais (Panc), pois enxergamos um grande potencial nelas para a agricultura na cidade, uma vez que são plantas que nascem espontâneas e muitas vezes possuem valores nutricionais superiores às hortaliças que consumimos. Por já nascerem nesse ambiente hostil, quando cultivadas em vasos ou canteiros se tornam mais viçosas e produtivas.

 

SÍNDICO: É caro montar e manter uma horta comunitária num condomínio?

Alice: Não. Tudo depende do engajamento das pessoas no projeto, do tempo e esforço dedicado por cada um na manutenção dos canteiros e cuidado com as plantas. Produtos caseiros e até mesmo alguns que iriam para o lixo podem ser reaproveitados em uma horta ou jardim com soluções simples, como uma composteira, por exemplo. Quanto mais pessoas envolvidas, menores os gastos. Algumas parcerias podem ser feitas com outras hortas, condomínios ou lojas. Trocas de mudas e sementes e a venda de excedente dos produtos cultivados também ajudam.

 

SÍNDICO: Uma horta num condomínio pode se tornar um elemento para uma maior socialização entre os moradores?

Daniel: Sim. Qualquer espaço verde, seja horta, jardim, canteiro ou até mesmo um vasinho na janela do apartamento torna o ambiente mais agradável e pode aumentar a qualidade de vida das pessoas. Em casa, no condomínio e na cidade. Cultivar é cuidar de si e do outro, é trabalhar para manter a saúde e a vida de plantas, animais e também da sociedade. Experiências com o cultivo têm sido utilizadas como ferramenta educativa e até mesmo terapêutica em asilos, escolas e outras instituições. Um espaço comunitário onde as pessoas cultivam seus próprios alimentos e medicamentos é um espaço de troca de experiências, de debate e socialização.