Rio de Janeiro, 16 de setembro de 2016

Consumir com consciência

Condomínios se atualizam em prol de um futuro mais sustentável Continue lendo

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Izabele Caldas

Desde 2009, todo dia 15 de outubro comemora-se o Dia do Consumidor Consciente. O desperdício desenfreado dos bens naturais é uma preocupação comum a todo o planeta. A humanidade já gasta 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra e causa impacto na economia, nas relações sociais, na natureza e na sociedade de uma forma geral. Se os atuais padrões se mantiverem, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas Terra para atender nossas necessidades de água, energia e alimentos.

O consumo consciente é uma questão de hábito: pequenas mudanças cotidianas têm grande reflexo nas contas e futuro do planeta. Moderação no uso da água, acender somente as luzes necessárias, comprar apenas aquilo que realmente precisa, aquisição de produtos comercializados por empresas de responsabilidade socioambiental, são atos sustentáveis que trazem ganhos significativos ao meio ambiente, a saúde, as relações justas de trabalho, além de questões como preço e marca.

Novas saídas para economizar

As novas construções já estão sendo feitas com cuidados ambientais, mas edifícios antigos quem não tiveram preocupações ecológicas em seus projetos originais, têm muito por fazer. Para especialistas, a primeira coisa é tentar conquistar a simpatia dos moradores. Isso porque sempre surge uma certa resistência das pessoas em discutir medidas que, num primeiro momento, pode representar custos extras para o condomínio, mesmo quando apresentados estudos comprovando que aquele valor será compensado no decorrer do tempo por meio da economia de água ou energia elétrica, promovida pela obra.

Com a racionalização, o condomínio se beneficia e é possível ter novos rendimentos. Poupar a energia elétrica com a instalação de ”luzes inteligentes” (sensores de presença) evita lâmpadas acesas sem necessidade. Mas esse procedimento também é questionado, visto que assim as luzes se acendem durante o dia, por isso é importante avaliar o fluxo de passantes pelos corredores e garagens que teriam esse tipo de iluminação.

Entretanto, se a medida ainda for acompanhada da troca de lâmpadas incandescentes por lâmpadas compactas fluorescentes, também conhecidas como lâmpadas econômicas, trará um custo inicial para a instalação dos sensores e a compra das novas lâmpadas, mais caras que as tradicionais, mas que poderá ser revertido num curto espaço de tempo. A economia de energia pode chegar a 15% com os sensores e pode ir de 50% a 80% com as lâmpadas frias.

Síndico dos Condomínios Marcius, no bairro de Olaria, e o Edifício Chalé, no bairro da Tijuca, Marcelo Januário, acredita que uma gestão sustentável é o melhor caminho, além das benfeitorias ao ambiente. Ele aponta três medidas como imprescindíveis para garantir melhorias significativas: o uso racional da água verificando pequenos desperdícios, tais como torneiras pingando, registros e encanamentos vazando; a gestão do consumo de energia elétrica,  retirando lâmpadas incandescentes, instalação de sensores de presença, a revisão dos fios para que comportem a demanda de energia, evitando fuga de energia e sobrecargas e a devida manutenção em equipamentos como bombas de água; e por último, sensibilização e  treinamento das novas práticas adotadas dos envolvidos no processo.

“A melhor motivação é a conscientização dos condôminos e dos funcionários por meio da informação que envolva toda a comunidade na campanha de sustentabilidade, pedindo sugestões e preparando os funcionários para receber as novidades.  Entretanto, a realização deste projeto só se torna viável se houver o levantamento dos custos que eventualmente serão envolvidos, da checagem na mudança da rotina do condomínio diante das áreas que sofrerão o impacto, juntamente com a legislação atinente’’, diz.

Um exemplo de sucesso foi enxergar oportunidade na crise: dependendo da disposição e do uso das lâmpadas, é possível economizar entre 5 a 15% ao ano. ”Pode não parecer muito, mas 5% em uma conta de energia elétrica de R$ 1.000,00 mensais resultam em uma economia aproximada de R$ 600,00 anual com custo de implementação, o que é relativamente baixo”, explica.

Água e energia chegam a representar cerca de 20% dos custos operacionais de um prédio comercial. Segundo o site da Fundação CERTI (Fundação Centros de Referência de Tecnologias Inovadoras), o uso de energia elétrica por edificações representa 45% do total consumido no país.

Visando reduzir esse número, quem investiu na mudança do sistema de energia foi o edifício comercial Candelária Corporate. Sob a gestão do síndico José Carlos Taveira e da gerente Julieta Pinheiro, esse feito deu ao empreendimento a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) e o selo Procel Edificações, que identifica os imóveis com melhor desempenho no uso de energia quando comparado a outras edificações da mesma categoria.

A média mensal de consumo de energia elétrica do condomínio atualmente é 30% menor que a média de consumo registrada em 2010. ”Os prédios comerciais devem atender pessoas e empresas por décadas e, portanto, adotar ações para diminuir o impacto ambiental, como zelar pelo bom uso dos recursos, é um trabalho imprescindível e deve ser contínuo durante toda a vida útil do empreendimento”, analisam os gestores.

Tornar o elevador inteligente também tem sido uma tendência em prédios de grande porte, e funciona da seguinte forma: as pessoas chamam mais de um elevador e vira apenas o que estiver mais próximo. Porém, o custo para instalar não é dos mais baixos, o que pode ser um dificultador. Mas há formas manuais e mais didáticas de prevenir o mau uso, como cartazes conscientizadores pelo local, incentivando o uso de escadas para deslocamentos curtos.

Um hábito nocivo à conta de água do condomínio (e de casas também), mas bem comum, é lavar calçadas com mangueira. Uma limpeza feita com o uso de um balde e a velha e boa vassoura é igualmente eficiente e gasta muito menos água, além de contribuir para o meio ambiente.

O consumo indiscriminado de água pode ser diminuído com campanhas de conscientização, como cartazes explicativos em diversos pontos do prédio, mas se os moradores não aderirem à iniciativa, uma solução é a individualização dos hidrômetros. O custo é mais elevado, mas cada um pagará o que utiliza.

A saída pode estar no lixo

Um dos maiores aliados do consumo consciente é o reaproveitamento do lixo.  Esse é o caminho para a solução dos problemas relacionados a ele, utilizando o princípio dos 3R’s -  reduzir o consumo e preferir produtos que ofereçam menor potencial de geração de resíduos e tenham maior durabilidade, reutilizar embalagens para guardar alimentos ou outros materiais e reciclar. Algumas entidades já sugerem a inclusão de mais um R, que deve ser praticado antes mesmos dos outros: repensar sobre os seus atos de consumo e os impactos que eles provocam sobre você mesmo, a economia, as relações sociais e a natureza.

Outra forma de trazer melhores práticas é implantação da coleta seletiva de lixo, pois a distribuição correta de resíduos possibilita a reciclagem de materiais, conserva o solo, diminui o acúmulo nos aterros e lixões, prolonga a vida útil dos aterros sanitários, além de outros benefícios.

O óleo de cozinha, por exemplo, pode ser reutilizado e revertido em benefício do condomínio para outros fins, ao invés de ir parar no ralo da pia. Os destinos mais comuns são a produção de sabão e de fontes alternativas de energia, como o biodiesel, deixando de contaminar rios e lagoas. Os moradores podem separar em garrafas pets e vender para empresas que compram o material. Há várias cidades em que são desenvolvidos projetos e programas de incentivo para a reciclagem do óleo com coleta em edifícios.

Se o condomínio decidir tratar do consumo consciente entre os moradores uma dica é marcar uma Assembleia Extraordinária, com pauta específica para tratar do assunto. Neste caso, vale reunir bastante material informativo, cases e até levar convidados para discursarem sobre o assunto. Afinal, estamos falando de um processo de cultura e apenas através da sensibilização e posterior engajamento de todos que será possível dar passos para um futuro melhor para toda a comunidade envolvida. Boa sorte.

 

Dez medidas sustentáveis para reduzir os custos e cuidar do planeta

1 – Se o edifício tiver piscina cubra quando não estiver em uso: a cobertura reduz a evaporação em até 90%, chegando a uma economia de 378,5 litros de água por mês, além de prevenir a proliferação do mosquito da dengue;

2 – Abandone a mangueira: regar as plantas com um regador ou mangueira com esguicho-revólver evita a evaporação. A economia é de 96 litros;

3 – Lave o carro a seco: se o prédio tem espaço para lavar o carro, opte por usar um líquido em spray e panos descartáveis ou de microfibra. É possível limpar o automóvel sem uma gota d’água;

4 – Cheque os vazamentos: faça inspeções periódicas para checar se há vazamentos de água no prédio, as contas do condomínio podem diminuir até 20%;

5 – Troque os vasos sanitários: se o seu prédio é antigo, vale trocar os vasos das áreas comuns e unidades: os modelos com caixa acoplada reduzem o volume de 24 para 6 litros por descarga;

6 -  Apele para a vassoura: usar a vassoura para varrer a calçada, e não a mangueira, gera uma economia de 279 litros a cada 15 minutos;

7 – Individualize a água: faça uma cotação para ver quanto fica a instalação de hidrômetros individuais. Sai caro por unidade, mas a longo prazo funciona (cada morador paga o que consome e isso estimula a economia);

8 – Colete água da chuva: se houver espaço, pense na construção de reservatórios para armazenar a água das chuvas. Ela pode ser reaproveitada na limpeza das áreas comuns e nos jardins. Mas tome o cuidado de utulizar logo para evitar o mosquito da dengue;

9 – Faça campanhas contra desperdícios: incentive os moradores a economizar água através de cartazes nas áreas comuns e comunicados internos dando dicas para evitar o desperdício nos apartamentos;

10 – Avalie a construção de um poço artesiano: faça uma cotação para ver se a perfuração de um poço artesiano vale a pena. O custo é alto, mas o condomínio passa a ter sua própria fonte de água, garantindo abastecimento durante períodos de racionamento.