Rio de Janeiro, 12 de maio de 2015

Natureza Urbana

Tendência no Paisagismo, os jardins verticais são opção sustentável de embelezamento de fachadas e áreas comuns dos condomínios Continue lendo

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Aline Durães

No lugar do habitual concreto, pastilhas ou porcelanato, estão plantas e vegetação. Essa é a proposta principal dos jardins verticais. A técnica paisagística, que vem ganhando força no Brasil, chama a atenção de quem entra em contato com ela.

Também conhecidos como paredes verdes, os jardins verticais foram criados pelo botânico francês Patrick Blanc que, depois de observar o padrão de crescimento da vegetação em superfícies rochosas, fixou diferentes espécies de plantas tropicais em paredes urbanas, unindo Arquitetura e natureza em um só lugar. O projeto deu tão certo que não só tornou os jardins do francês famosos em todo o mundo como motivou milhares de pessoas a reproduzirem seu trabalho.

A técnica dos jardins verticais consiste basicamente em cobrir paredes com um feltro especial, no qual são colocadas as plantas. Fertilizantes irrigam regularmente esse feltro, o que abastece as raízes das plantas, impedindo que elas cresçam muito em busca de nutrientes. “Os sistemas são pensados para não comprometer as paredes — o peso do sistema encharcado não supera o peso médio calculado para paredes. Isso significa que um jardim vertical pode ser instalado em qualquer estrutura. Não há limites de metragem quadrada. Podemos construir tanto em paredes internas da área comum como em casa e até em fachadas de condomínios. Valoriza qualquer ambiente. No caso da fachada, a altura é o maior fator de complexidade, pois para executar e manter é necessário levar a mão de obra em todas as áreas do jardim vertical, mas isso não inviabiliza”, destaca o paisagista Pierre-André Martin.

Pierre explica que há dois tipos principais de jardins a serem construídos no condomínio: o artesanal e o modular. “Os modulares são mais racionais em termo de gestão: consomem menos recursos, porém não permitem implementar sujeitos arbustivos maiores. Cada situação merece ser estudada para se escolher uma das opções”.

 

Benefícios

O resultado da técnica de Blanc é de encher os olhos: paredes inteiras cobertas por uma vegetação densa e verde, mostrando que é possível o contato com a natureza mesmo em meio ao caos das grandes cidades. Mas os benefícios dos jardins verticais não se resumem ao espetáculo estético que proporcionam. Como qualquer outro jardim, o vertical produz oxigênio, melhorando a qualidade e a umidade do ar. Com o ar menos seco, o conforto térmico aumenta. Além disso, ele funciona como uma barreira ao impedir a entrada de raios solares nos ambientes e, com isso, contribui para uma temperatura mais amena nos interiores do condomínio.

Outro ponto positivo da estrutura é a sensível redução de ruídos e poluição sonora, já que as plantas acabam funcionando como revestimento acústico. Para o meio ambiente, funciona como um aliado contra a poluição: os microoganismos presentes no substrato onde crescem as plantas ajudam a reter as impurezas e poluentes, transformando-os em fertilizantes para a vegetação.

Por último e não menos importante, o jardim vertical estimula o cultivo para consumo próprio. Algumas hortaliças que possuem ciclo de desenvolvimento curto, como a alface, por exemplo, podem ser cultivadas e colhidas diretamente da fachada verde. “Os jardins verticais são uma opção econômica e versátil para quem deseja viver ‘mais verde’. Qualquer ambiente da residência ou condomínio pode se transformar em um cantinho verde para relaxar, estar em contato com a natureza ou cuidar de ervas e temperos”, pontua Alice Saraiva, jornalista e publicitária que criou o Jardim do Coração, site especializado em conteúdo sobre casa e jardim.

Mariá Nejar comprou a ideia. Foi a partir de uma consulta na Internet que a síndica resolveu criar o jardim vertical que hoje é atração no condomínio Pensilvânia, em Copacabana. A opção da gestora foi por um jardim vertical mais simples, composto de 80 garrafas PET. “Com a ajuda de um funcionário, montei a estrutura em uma grade de alumínio com garrafas que pegamos aqui mesmo no condomínio. Nosso jardim tem várias espécies de plantas, escolhidas tanto pela beleza como pela adaptabilidade ao local”, explica.

O sucesso foi tanto que, hoje, o condomínio atrai visitantes: com a autorização do porteiro, eles entram para tirar fotos e fazer filmagens do jardim. Mariá conta ainda que, desde a implantação da estrutura de garrafas PET, já foi abordada por inúmeras pessoas que querem reproduzir o projeto nas varandas de suas residências. “Com pequenas atitudes e gastando bem pouco, é possível fazer muito! Hoje, nosso condomínio é mais agradável visualmente, mais ventilado e protegido, preservando a individualidade das unidades”, observa a síndica.

 

Requisitos

Instalar um jardim vertical exige um estudo prévio que contemple, entre outras coisas, a escolha da técnica, tipo de irrigação, substrato e espécies de plantas a serem utilizadas, além da análise das condições de luminosidade, ventilação, incidência do sol e umidade das paredes ou fachadas que abrigarão o projeto.

A ajuda profissional de um arquiteto ou paisagista é interessante para os síndicos não familiarizados com o tema. Mas esse auxílio não exclui a necessidade de pesquisa e imersão que um projeto como este demanda do gestor. É preciso saber, por exemplo, que a qualidade do substrato onde crescerão as plantas é crucial para o sucesso do jardim. Quanto mais durável a parte orgânica do solo, maior a sua porosidade e, consequentemente, a capacidade de nutrição da planta. Se ela se alimenta mais e melhor, é natural que seja exuberante e viva por mais tempo. “O sistema artesanal coloca a vegetação numa manta de fibra, que substitui o substrato, e as raízes das plantas se fixam nela. O sistema modular costuma ter um espaço tipo canaleta; a planta é colocada no substrato e se acrescenta argila expandida para manter umidade. Nos dois casos, o substrato é de pequeno volume, para não ocupar muito espaço, daí a dependência de um sistema de irrigação, uma vez que não pode se armazenar muita água”, destaca Pierre.

A escolha das plantas é outro ponto de atenção. Deve-se evitar espécies com raízes grandes, por exemplo. Como o espaço é reduzido, se o condomínio optar por plantas de raízes agressivas, é bem capaz de elas danificarem a estrutura de suporte. É importante optar também por plantas mais perenes, que sejam duráveis e resistentes, caso contrário há o risco de se perder tempo demasiado com a manutenção. “Aqui em casa o meu xodó é o jardim vertical com cactos e suculentas. Amo essas plantinhas porque são fáceis de cuidar, bebem pouquíssima água e são de baixa manutenção. Neste momento de crise de água que estamos vivendo, os jardins semi-áridos trazem um alento para nós, pois assim é possível ter um jardim sempre bonito, sem pesar na consciência”, pontua Alice Saraiva.

Se a intenção do condomínio é instalar o jardim na fachada ou em parede ampla, é importante que ele seja denso e fechado, sem buracos e espaços vazios. Assim o aspecto estético não compromete a qualidade do projeto. Para isso, a decisão deve ser por plantas cheias, que tenham folhas ou ramos pendentes.

A preocupação com a incidência de luz do sol e de ventos também deve nortear a escolha das plantas que irão compor o jardim vertical. O ideal, nestes casos, é evitar as espécies que precisam de muita água para sobreviver ou as com folhagem macia e delicada. Quanto mais exposto o jardim, mais resistentes às intempéries deve ser a vegetação. Entre os tipos que mais resistem ao vento e sol, estão o aspargo, a jiboia, russélia e samambaia. “A exposição ao sol é determinante para o jardim vertical, por isso é importante escolher as plantas capazes de suportar a exposição solar do ambiente”, lembra Pierre.

 

Manutenção dos jardins

Tão importante quanto instalar o jardim é mantê-lo. Dos cuidados destinados à manutenção dependerá todo viço, beleza e vida do projeto. E, assim como ocorre com um jardim tradicional, o estilo vertical também exige atenção periódica, a começar pelo método de irrigação.
Segundo especialistas, a rega é o coração do jardim. Se efetuada de forma errada, acaba por comprometer sua continuidade. Como as plantas verticais absorvem menos água, precisam ser regadas com maior regularidade do que a vegetação comum. Se a parede que abriga o jardim for pequena, pode-se adotar a irrigação manual. Mas, no geral, o ideal mesmo é optar por um sistema automático. Um dos mais eficientes disponíveis no mercado é o composto de um tubo gotejador por fiada horizontal. O princípio é o mesmo das mangueiras, mas com peças laterais abertas e rígidas que, juntas, levam água até a raiz de cada unidade. “Se a rega for manual deve-se usar plantas adequadas para a situação do jardim vertical com consumo baixo de água. Nesse cenário, uma rega por dia ou a cada dois dias será suficiente”, alerta Pierre-André Martin.

A manutenção inclui também o processo de fertilização, que pode ser manual, mas também existe em versões automatizadas, entre elas a que embute o adubo no sistema de irrigação e, de tempos em tempos, aplica-o nas plantas.

Por último, há a poda. Como o crescimento das plantas em um jardim vertical é reduzido – graças ao processo de fertilização controlada e da baixa luminosidade, especialmente nos casos de jardins internos – a frequência da poda é baixa, sendo executada, em geral, a cada três meses. É importante enfatizar, entretanto, que ela deve ser realizada sempre por profissional qualificado para a tarefa, o que exige reserva financeira e planejamento prévio do condomínio. “É importante estar sempre atento às reações do jardim. Se as folhas amarelarem ou ficarem secas, é sinal de que está na hora de verificar o abastecimento em água. Os cuidados são os mesmos do que os dispensados para plantas em vasos”, destaca o especialista Pierre.

No Pensilvânia, Mariá conseguiu reduzir os custos de manutenção do jardim graças ao reaproveitamento de recursos. “O jardim está conectado com o restante do condomínio. A irrigação é feita à noite, com água reutilizada da chuva e da drenagem do solo da garagem. Não há prejuízos ou custo fixo. Só gastamos com a troca de mudas, que é um valor irrisório”, diz a síndica. “O jardim vertical é ideal para quem gosta de plantas, mas não tem muito tempo disponível para se dedicar a elas. Ele não tem muita regra. Vale tudo neste espaço, inclusive usar materiais reutilizados, que poderiam ser descartados no lixo, tais como: caixotes de feira, pallets, tijolos, blocos de concreto, escadas antigas, tábuas de madeira, latas, garrafas pets, sapateiras, canos de PVC, e os materiais mais diversos que você imaginar. Jardins verticais têm tudo a ver com sustentabilidade”, completa a jornalista Alice.

 

Faça seu próprio jardim

Se você gostou da ideia de um jardim vertical, mas não tem recursos financeiros para contratar uma empresa para implantá-lo, saiba que pode construir um a preço baixo sem a necessidade de ajuda profissional especializada, desde que em um espaço reduzido da área interna do prédio ou de sua residência.

Antes de mais nada, é preciso escolher o local (parede) que abrigará o jardim. Na escolha, não deixe de considerar a luz que incide no espaço; ela será crucial para o desenvolvimento da vegetação do jardim. Em relação às plantas, é importante selecionar espécies com necessidades de luz, solo, clima e rega parecidas. Abaixo, você confere dicas de como construir diferentes tipos de jardins verticais, sem precisar comprometer as finanças do seu condomínio:

Jardim de pallets: Que tal reaproveitar aqueles pallets velhos e transformá-los em um belo repositório de plantas? O processo é mais simples do que parece: em primeiro lugar, lixe o pallet para retirar possíveis farpas. Grampeie uma lona de jardim – que deve ser duas a três vezes maior que o pallet – em toda a extensão do objeto, inclusive nas laterais e nos cantos, tomando o cuidado de dobrar a lona para que ela nunca seja derramada.

Coloque a estrutura montada em uma superfície plana e jogue terra já adubada pelas ripas, pressionando sempre. Feito isso, insira as plantas, começando pela parte de baixo do estrado e terminando no topo. Acrescente mais solo para que as plantas fiquem bem firmes. Deixe-as na horizontal por cerca de duas semanas, regando com regularidade. Depois disso, já pode colocá-las na vertical.

Jardim de garrafas pet: Para criar uma horta com a da síndica Mariá, é necessário reunir um número significativo de garrafas PET de dois litros limpas e vazias. Em cada uma delas, você deverá cortar uma espécie de janela, que é por onde a planta irá florescer. É importante que uma distância de três dedos separe a abertura da parte de baixo de cada garrafa e um palmo a separe da parte de cima.
Fure o fundo de cada garrafa para que o excesso de água da terra possa sair. Faça também outros dois furos na região próxima às aberturas superior e inferior da garrafa para passar o cordão que segurará a garrafa. Para que o cordão fique preso à garrafa, você pode dar um nó forte no barbante ou utilizar uma arruela como calço. Prenda e alinhe as garrafas na parede escolhida e, depois, coloque a terra já com as sementes.

Jardim na sapateira: Aquela sapateira de nylon velha também pode se transformar em uma jardineira especial para decorar ambientes pequenos ao ar livre. Coloque um varão de cortina de 1,5 m na parte superior da sapateira. Instale os suportes do varão na parede e pendure a sapateira. Coloque em cada bolso da sapatilha uma média de cinco dedos de argila expandida. Feito isso, cubra com terra adubada até a metade do espaço que sobrou de cada bolso preenchido e coloque as mudas das plantas escolhidas. Complete os espaços restantes com terra. Verifique se a sapateira tem boa drenagem. Caso não tenha, faça pequenos furos nos bolsos para que a água da rega possa sair sem encharcar a planta. Para esse tipo de jardim, o ideal é utilizar plantas que necessitam ser regadas, no máximo, uma vez por semana. Entre as mais indicadas estão dedinho-de-moça e rosa-de-pedra.

 

De olho na Internet!

Se você quer ver como ocorre na prática a instalação de um jardim vertical na fachada de um condomínio, o documentário “Edifício Honduras” pode lhe ajudar. Produzido pelo coletivo Movimento 90º, grupo de arquitetos e paisagistas que incentiva a implantação de jardins verticais como alternativa de Arquitetura sustentável, o curta mostra o processo de montagem do jardim vertical do Edifício Honduras, localizado em São Paulo, construído sobre um suporte instalado a cinco centímetros de distância da parede, afastando assim o risco de infiltração.
Para assistir, basta acessar o endereço https://vimeo.com/82411566

 

As plantas ideais

Confira na tabela abaixo as características de algumas espécies e escolha a que mais combina com o jardim que você pretende construir:

Nome Consumo de Água Crescimento Luminosidade
Aspargo Baixo Lento Sol
Hera Pendente Baixo Rápido Sol
Lisimáquia Alto Médio Sol
Russélia Baixo Médio Sol
Gaimbé Baixo Rápido Nativo, Sol e Sombra
Samambaia Metro Médio Médio Nativo e Sombra
Samambaia Americana Médio Médio Sombra
Dinheiro em Penca Baixo Rápido Nativo, Sol e Sombra
Peperomia Pendente Baixo Rápido Nativo e Sombra
Flor Batom Baixo Rápido Sombra