Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2014

Atitudes sustentáveis

A reutilização de água da chuva vem sendo adotada por muitos condomínios. Além de uma ação amigavelmente sustentável, ela também ajuda a reduzir uma das despesas mais caras do condomínio: a conta de água. Continue lendo

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Texto: Vanessa Sol

Vivemos no planeta Terra, mas ele poderia se chamar Água. Cerca de 70% da superfície da Terra é coberta por água. Este dado acaba gerando a falsa ideia de que podemos desperdiçar este recurso natural tão valioso à vida. No entanto, daquele percentual, apenas 3% são de água doce. Para que este recurso continue abundante, é preciso cada vez mais a consciência para a prática de atitudes sustentáveis, permitindo que as gerações futuras também possam desfrutar deste recurso.

Muitos condomínios estão adotando o comportamento ecológico através de medidas simples, como o aproveitamento da água da chuva, que pode trazer inúmeros benefícios não só para o meio ambiente, mas também para as finanças do condomínio.

No Condomínio do Edifício Residencial Lagoa Verde, com 50 unidades, no Jardim Botânico, o sistema de captação de água da chuva está sendo implantado com sucesso. Preocupado não só com as questões ambientais, mas também com a conta de água, o síndico Alysson Soares Mendes Peixoto resolveu investir. De acordo com o síndico, foram colocadas calhas para a captação da água, uma bomba e uma caixa de água de 6 mil litros com filtro. A água será captada por meio de seis canalizações feitas na cobertura do play e do prédio. Ele explica que, com o sistema, não haverá dificuldade para completar o reservatório e garante: “Com um bom volume de chuva é possível enchê-lo facilmente”, afirma Alysson.

Consciente do seu papel como cidadão, o síndico alerta ainda que é importante a população também tomar consciência de que a escassez dos recursos hídricos é um problema que pode afetar todo mundo. Ele lembrou o problema de abastecimento de água do sistema Cantareira, em São Paulo. “Se acontecer aqui no Rio de Janeiro algo parecido ao que vem ocorrendo em São Paulo, com dois reservatórios de 5 mil litros de água sobressalentes, eu abasteceria meu condomínio por 15 dias. Nós não pensamos nos recursos naturais que podemos aproveitar em benefício da própria natureza”, afirma o síndico.

A pesquisa para a implantação do sistema foi intensa. Alysson buscou informações sobre o melhor método de captação de água da chuva na internet, pesquisou em outros condomínios que já tinham um sistema implantado e com empresas do ramo, constando que a iniciativa seria, realmente, importante para o Lagoa Verde. “A ideia do sistema de captação de água da chuva é maravilhosa. Em todos esses condomínios que eu visitei, o sistema deu certo e os resultados foram surpreendentes, com a conta de água sendo reduzida pela metade”, afirma o síndico.

Custo X benefício
A vontade de aproveitar a água da chuva surgiu a partir da tentativa de reduzir o valor da conta de água, que ficava em torno de 20 mil reais. Primeiramente, o síndico fez um planejamento de toda a estrutura de encanamento do condomínio para identificar onde poderiam existir possíveis vazamentos. Com essa varredura nos encanamentos, torneiras, chuveiros, vasos sanitários, o síndico conseguiu reduzir a conta para 8 mil reais. “Mesmo com a economia significativa que o condomínio teve com o conserto dos vazamentos, eu percebi que ainda estávamos desperdiçando dinheiro por não aproveitar a água da chuva nas nossas atividades cotidianas, como lavar o piso do play e da garagem, molhar as plantas e lavar a piscina. Essas tarefas podem ser feitas perfeitamente com a água aproveitada da chuva”, explica o síndico.

O próximo passo, então, foi implantar o sistema de captação de águas pluviais. Com a aprovação da ideia pelos condôminos, em assembleia, o síndico contratou um engenheiro para o projeto, que não teve custos elevados para o condomínio. O reservatório foi colocado em uma área não utilizada da garagem. Alysson ressalta que há espaço no condomínio para mais um reservatório de 5 mil litros de água. “Inicialmente, estamos começando com apenas um reservatório, mas, se precisar, ampliaremos para dois reservatórios”, afirma.

No futuro, o síndico já pensa em utilizar a água captada para abastecer os banheiros do play. “No play, nós temos quatro vasos sanitários. A ideia é fazer o abastecimento destes quatro vasos com a água captada da chuva”, explica Alysson.

A expectativa do síndico é reduzir as despesas com a conta de água pela metade. Com isso, o valor da conta cairia para, aproximadamente, 4 mil reais. De acordo com o síndico, a redução trará muitos benefícios ao condomínio e o dinheiro que era gasto anteriormente com a conta de água, agora será investido em melhorias para o Lagoa Verde. “Eu quero conseguir aqui no condomínio chegar a uma economia entre 50 e 60% do valor atual da conta. Se eu conseguir isso, será maravilhoso, porque poderei investir em reformas de melhoria”, declara Alysson.

De acordo com o síndico do Condomínio Lagoa Verde, o valor gasto para a implantação do sistema de captação de água da chuva retornará logo no primeiro mês. “O investimento feito foi muito baixo para a economia que o condomínio terá e esse valor gasto será pago já no primeiro mês”, garante Alysson.

Fernando Chame Barreto, sócio-gerente de uma empresa com mais de 12 anos no mercado prestando consultoria e serviços de reutilização e tratamento de águas, confirma o baixo custo do empreendimento. Ele ressalta, ainda, que a implantação do sistema de captação de águas pluviais é muito simples. “Para se ter um bom sistema, basta um telhado bem limpo, um separador de folhas, o reservatório e uma boa cloração da água. Isso tudo tem um custo muito baixo para economia que será feita, principalmente, porque no Rio de Janeiro o valor da água é muito caro. A captação de água da chuva é um sistema plenamente viável e de retorno muito rápido. Outro aspecto importante a ser mencionado é que a água da chuva é bem precioso e gratuito, que ninguém se dá conta do valor que ele tem, sobretudo, pelo volume abundante deste recurso num país tropical, como o nosso, onde chove muito”, explica.

Fernando Barreto explica ainda que um separador de folhas pode ser encontrado no mercado pelo valor aproximado de 800 reais. O dispositivo é importante porque ele despreza o primeiro fluxo de água que pode conter impurezas, além das folhas. “Para se ter água de chuva tratada não é preciso de coisas mirabolantes”, destaca o gerente

Técnicas de reutilização de água
As técnicas empregadas para o reaproveitamento de água são diversificadas. A captação de águas das chuvas é apenas uma delas. De acordo com o gerente da Izaqua, é possível também a adoção de sistemas de extração de águas subterrâneas, através de poços artesianos e semi-artesianos, e reuso de águas cinzas, que são as águas de esgoto domésticos e industriais. Porém, a água derivada desta técnica não é destinada ao consumo. “Embora a água proveniente da técnica de reuso de águas cinzas tenha passado por processos que permitam que ela seja usada novamente, ela não é potável, por isso deve ser utilizada apenas para limpeza externa e rega de plantas”, explica Fernando Barreto.

Pela praticidade, o sistema de captação e aproveitamento das águas pluviais é o mais indicado para condomínios e pode ser desenvolvido a partir de estruturas já existentes e disponíveis, como telhados ou lajes, de imóveis de todos os tipos, que podem ser casas, prédios residenciais e comerciais, indústrias, dentre outros.

Cuidados com a água
A captação da água de chuva é uma maneira rápida de se obter um grande volume de água em um período de tempo bastante reduzido e com qualidade satisfatória, desde que adotados os cuidados necessários à higienização da água coletada. A armazenagem deve ser feita em um reservatório ou cisterna, diferentes daqueles utilizados pelo condomínio para água oriunda da empresa de abastecimento.

De acordo com o consultor da empresa especializada, não existe, atualmente, uma legislação específica sobre a água de chuva para consumo humano. No entanto, é importante que o sistema de captação de águas pluviais tenha filtragem e aplicação de cloro na água, deixando-a própria para uso, atendendo as disposições da portaria 2914 do Ministério da Saúde, que traz uma série de parâmetros para que a água seja considerada potável. “Nós orientamos os síndicos a seguirem a portaria 2914 do Ministério da Saúde para que eles não tenham problemas jurídicos na esfera civil nem na criminal, porque o condomínio enquanto pessoa jurídica tem responsabilidades”, afirma Fernando Barreto.

A satisfação do síndico do Lagoa Verde com a implantação do sistema é tão grande que ele deixa a dica para possíveis seguidores: “Este tipo de iniciativa precisa ser disseminado entre os síndicos e se todos os condomínios implantassem um sistema de captação de águas pluviais, veriam quantos benefícios ele pode trazer”, finaliza Alysson Peixoto.