Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2013

Uma cidade em forma de condomínio

Conheça os desafios e as vantagens de administrar um condomínio de proporções gigantescas, como o Rio 2 Continue lendo

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Uma área de 600 mil metros quadrados com shopping center, supermercado, farmácia, salão de beleza, cursos, restaurantes, colégios, ciclovia e até jardins elaborados por Roberto Burle Marx. Com tantos serviços, só pode ser uma cidade ou um bairro, certo? Na verdade, toda essa descrição é do Condomínio Rio 2, um dos maiores complexos habitacionais da América Latina, localizado na Barra da Tijuca.

O condomínio não tem esse nome à toa. É praticamente outra cidade dentro do Rio de Janeiro. Foi o primeiro a carregar a ideia de “condomínio-bairro”, muito comum nesta região: um lugar onde o morador pode encontrar tudo o que precisa, em casa! Com o primeiro prédio erguido no início da década de 90, hoje, o cenário é bem diferente: cerca de 20 mil moradores divididos em 25 condomínios, compostos por 39 prédios e 4.109 unidades, ao todo. E já existe uma nova edificação pronta para ser entregue, que vai funcionar em esquema de flat.

O Rio 2 exemplifica muito bem a Barra da Tijuca. É um espaço enorme, majoritariamente residencial e que cresceu num salto nos últimos anos. Em seu interior, ele apresenta belas estátuas, jardins muito bem cuidados e aquele clima de ambiente familiar típico do bairro: moradores se exercitando na ciclovia, crianças sorridentes, muitos acenos educados e seguranças por todos os lados. Em termos geográficos, é do tamanho de uma cidade de interior ou maior do que pequenos bairros da Zona Sul do Rio. Para se ter uma ideia, o contrato do sistema de transporte das 33 linhas do condomínio é de R$1,1 milhão por mês e o de paisagismo atinge cerca de R$70 mil.

Se você, síndico, acha que o seu condomínio dá dor de cabeça, imagine ser responsável por algo como o Rio 2… Para que todo esse sistema flua bem, cada residencial possui um síndico, uma administradora e um conselheiro. Além disso, o complexo tem uma associação de moradores, a Amo Rio 2, fundada há 13 anos e que tem papel estratégico: a gestão das áreas públicas.

A associação tem estatuto próprio, sede no local, e proporciona aos moradores a qualidade de vida que o setor público não garante, ao custo de uma taxa mensal já prevista na escritura do imóvel. Mas não pense que acabou. Por trás de todo esse trabalho, há ainda a participação da administradora da associação, a APSA, responsável por trazer ideias para a organização com o programa Gestão Total.

No cargo de representante da APSA na direção da Amo Rio 2 desde dezembro de 2012, Artur Pignataro diz que o maior desafio à frente do condomínio é a comunicação, afinal, são muitas fontes de informação. “O Rio 2 é um marco na Barra da Tijuca. Inicialmente, ficaríamos por três meses na gestão, mas como o projeto deu certo, estamos até hoje. Cuidamos de toda a administração e contabilidade tradicionais, mas desenvolvendo outros projetos. Assim que chegamos, implantamos um setor de Marketing, Endomarketing e Comunicação para eliminar ruídos e ajudar a chegar mais perto dos moradores de forma eficiente”, afirma ele.

Hoje, o condomínio também possui conta nas redes sociais, um site em processo de reformulação e uma revista com tiragem de 4.100 exemplares. Tudo para transmitir comunicados e decisões de maneira ágil.

É claro, existem inúmeros percalços na gestão de um espaço tão amplo. E o presidente da Amo Rio 2 sabe disso como ninguém. Com apenas 27 anos, o jovem Renan Moraes foi o primeiro morador eleito para a função em fevereiro do ano passado. Seu Renan – como é chamado por lá – administra a tarefa com braço de ferro. Assim que assumiu o cargo, logo se deparou com um grande problema: transformar um cenário de dívidas e uma imagem negativa num ambiente positivo, eficiente e convidativo. A experiência de nove anos na área imobiliária de uma grande empresa ajudou na missão.

“A impressão dos moradores em relação à administração antiga era muito ruim. E mudar isso não é fácil. Começamos de cima para baixo. Foi um processo complexo. Hoje, a Amo Rio 2 tem uma estrutura completamente nova, complexa e eficiente”, diz ele, deixando claro que associação não é condomínio. “Aqui o morador tem voz ativa, mas ainda há pouca participação. O condômino enxerga muito o próprio condomínio. Ele também precisa ver a importância que a gestão das áreas comuns tem em sua vida”.

Por mais curioso que pareça, a Amo Rio 2 nunca havia sido administrada por um morador. Desde então, muita coisa mudou. Os contratos de segurança, paisagismo e limpeza foram revisados. Profissionais qualificados foram contratados para fiscalizar a eficiência dos mesmos, gerando uma economia considerável. A empresa de gestão de segurança foi trocada. Mas, segundo Renan, o grande desafio ainda é otimizar o sistema de transportes, um dos maiores do Rio de Janeiro.

“Quando o condomínio nasceu, eram poucos prédios. À medida que foi crescendo, as necessidades mudaram. Pensando na maioria, tomamos uma série de medidas. Refizemos o regulamento de cobrança e vamos iniciar um processo de auditoria permanente para que eles possam julgar e avaliar o trabalho”, explica Renan, que também é síndico e conselheiro de seu residencial.

Criatividade para gerar receita
Injetar dinheiro e diminuir o ônus dos condôminos diante de um cenário gigante como esse é uma verdadeira missão, que, hoje, está principalmente nas mãos da área de Marketing e Eventos do condomínio. O Rio 2 possui uma programação mensal de eventos e comemorações, que incluem uma corrida, um torneio de tênis, uma festa junina e a Feirarte, um projeto que incentiva os moradores a exporem artesanato.

Desde que a área começou sua atuação, grandes patrocinadores entraram na cartilha do condomínio, afinal, o perfil do morador é um público de Classe Média e Alta, com um poder aquisitivo considerável. Os patrocinadores pequenos são sempre bem-vindos, mas, este ano, a área de Marketing trouxe grandes nomes interessados em investir ali, como o Burger King, a Citroen e a gigante do mercado de bebidas, AmBev, que investiu mais de R$40 mil na festa junina do condomínio. Banners publicitários também foram instalados, assim como propagandas em alguns ônibus da frota.

Vivendo no condomínio há dois anos, a farmacêutica Ana Paula Montagnoli é produtora de cosméticos e uma das 25 artesãs-moradoras que expõem seu trabalho na Feirarte, feira de artesanato que acontece cerca de uma vez por mês num fim de semana, na Praça Burle Marx, principal área de convivência do Rio2. Afeira é um projeto antigo, mas que cresceu muito no último ano, tendo até lista de espera para as edições. Reúne patchwork, pintura, encadernação em tecidos e até docinhos gourmet, tudo produzido pelos moradores. A última edição teve um público de cerca de cinco mil pessoas. “Antigamente a feira não era muito convidativa, mas com a melhoria da divulgação estamos crescendo. Para mim, foi muito inesperado. A feira hoje é praticamente um ofício. Jamais imaginei que teria esse espaço na vida profissional, e o melhor, em casa. É muito gratificante. Acho que esse é o sentimento de todos os participantes”, relata Ana Paula.

Assim como ela, o morador Anderson Freitas, professor de tênis e um dos organizadores do tradicional torneio Rio 2 Open, também anda sorrindo por conta do sucesso das provas, entre elas masculinas, femininas e infantis. “O evento surgiu entre os próprios praticantes, foi crescendo, e hoje é o maior evento de tênis da Barra da Tijuca, indo para a 13ª edição. Há, inclusive, jogadores que começaram aqui e estão disputando competições mundiais. Como a quadra fica ao lado da ciclovia, reúne um público enorme”, explica ele.

Freitas comenta, que, mais do que gerar receita, os benefícios concedidos por ações como o Rio 2 Open são muitos. Por exemplo, aproximar e integrar os moradores ainda mais. “O torneio aproxima muito as pessoas e incentiva a prática da atividade esportiva. Estamos com excelentes expectativas para a próxima edição e fico contente por ele acontecer aqui com os próprios moradores. A Barra da Tijuca tem muitos outros condomínios que seguem o nosso modelo de habitação, mas o Rio 2 tem algo diferente, um calor humano e uma energia que só quem mora aqui sente”, conclui.

 

Texto: Mario Camelo