Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2013

Um espaço só para as magrelas

Saiba como manter a ordem e a segurança no bicicletário do condomínio. E, se o seu ainda não tem um, conheça bons motivos para aderir à ideia. Continue lendo

tamanho do texto:

Pedalar faz bem ao corpo, à saúde e até ao meio ambiente. Pesquisas mostram que uma hora de passeio com bicicleta queima de180 a300 calorias. Além de ficar em forma, o praticante de ciclismo reduz em 50% o risco de desenvolver doenças cardíacas e diabete adulta e afasta os incômodos sintomas da ansiedade e do estresse.

Mas os benefícios da prática não param por aí. Com o trânsito cada vez mais desordenado e caótico das cidades brasileiras, a bicicleta vem se configurando em um importante meio de transporte alternativo. Com ela, você foge do engarrafamento e chega mais cedo no trabalho, sem consumir qualquer combustível ou emitir gases poluentes na atmosfera para isso. Todas essas vantagens levam um número cada vez mais expressivo de brasileiros a aderir ao ciclismo, seja como esporte, seja como exercício do dia a dia.

Apesar do crescimento, alguns entraves ainda impedem a total popularização do uso da bicicleta nas grandes cidades. Um dos principais é a falta de espaço em casa para guardar o veículo que, embora pese cerca de 30 quilos, é robusto e ocupa um espaço nem sempre disponível nas unidades. Isso leva muitos síndicos a idealizarem a construção de bicicletários em seus condomínios. Foi o que aconteceu com Fábio da Silva, gestor do Rose, condomínio com oito unidades no Recreio dos Bandeirantes. Depois de tentar sem sucesso a construção do espaço com à antiga síndica do edifício, Fábio se candidatou ao cargo, ganhou e priorizou como meta de sua gestão a construção de um organizador para as bicicletas dentro do espaço condominial.

Apaixonado por ciclismo, Fábio sentia falta de um espaço em que pudesse alocar seu veículo sem comprometer a estética do edifício. “As bicicletas ficavam largadas na garagem, enfeavam o prédio”, conta. O síndico contratou um marceneiro para construir um bicicletário vertical de alumínio sob medida e afixou a estrutura em uma das vagas da garagem. “Ele é fixo na parede e tem ganchos, onde as pessoas podem pendurar suas bicicletas. Temos espaço para 16 bicicletas ali, ou seja, cada unidade pode alocar até dois veículos”, complementa.

Atento às questões estéticas, Fábio mandou pintar o espaço com a mesma tinta do piso, assim as rodas dos veículos que ficam pendurados nos ganchos não mancham a parede ao encostar nela. “Aquela vaga era morta, pequena demais para caber qualquer carro. Não tinha serventia alguma. Agora, pelo menos, funciona como organizador de bicicletas”.

Tipo ideal
Existem vários tipos de bicicletários, mas qual deles é o ideal? Bom, essa resposta vai variar de acordo com o espaço disponível no condomínio onde o paraciclo será construído ou instalado. Para casos como o de Fábio da Silva, que sofria com a falta de área útil nas dependências comuns do prédio, os modelos verticais são uma saída, já que as peças são vendidas em módulos e podem ser facilmente adaptadas a pequenas áreas.

O suporte de pendurar, no entanto, não é o preferido dos especialistas no assunto, já que pode danificar o aro das bicicletas e quebrar os refletores da roda e eventuais sensores de velocidade. Além disso, eles nem sempre conseguem acomodar todos os tipos e tamanhos de bicicleta disponíveis no mercado.

Há ainda os bicicletários com encaixe de rodas, nos quais uma das rodas da bicicleta se encaixa ao suporte, fazendo com que ela fique em pé, e os com suportes de guidão, modelo no qual a bicicleta fica presa pela parte da frente. Ambos também têm restrições. O primeiro por torcer o aro e entortar os discos de freio das bicicletas, o segundo por danificar as alavancas de marchas e de freio e outros dispositivos eventualmente instalados no guidão.

Segundo a Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú (ACBC), uma das mais atuantes associações do país, os bicicletários adequados são “aqueles que permitem que a bicicleta seja nele encostada, com as duas rodas no chão e que possibilitem a fixação de um cadeado no quadro do veículo”. Esses modelos são os mais indicados por permitirem o estacionamento de todos os tipos de bicicletas, por não danificarem nenhum dispositivo do veículo e por possibilitarem que a bicicleta seja estacionada de frente e de ré.

Como organizar o espaço
Para que o bicicletário sirva bem a todos os condôminos não basta construir o espaço, mas é necessário, acima de tudo, administrá-lo com responsabilidade. E essa tarefa nem sempre é fácil. Sérgio Ribeiro conta que já passou poucas e boas no paraciclo de seu condomínio, o Embaixador Cardoso de Oliveira, com 25 unidades, no Humaitá. Há alguns anos, um antigo gestor criou uma área para guardar bicicletas. Como não havia um controle mais rígido, com o tempo, o espaço “passou a ser um amontoado de bikes, onde alguns moradores tinham até quatro unidades guardadas e outros não tinham nenhuma, pois o espaço não comportava”, narra.

A desorganização acabou provocando indisposições entre os condôminos, o que levou Sérgio, depois de eleito síndico, a convocar uma Assembleia para discutir a questão. “Tínhamos a opção de manter o espaço como estava, acabar com o bicicletário ou reformulá-lo por completo. No fim da Assembleia, a última proposta foi a vencedora e iniciamos as mudanças”.

Sérgio instalou então araras próprias para a guarda de bicicletas e retirou a grade que delimitava o bicicletário, facilitando assim a retirada das bikes. Além disso, o síndico do Humaitá estipulou regras para a utilização do paraciclo: “estabelecemos o limite de uma bicicleta por unidade. Caso algum morador queira ceder seu espaço, deverá fazê-lo por escrito. Também determinamos que, para maior segurança, cada condômino se encarregue de prender a sua bicicleta com cadeado”, explica.

Como mostrou Sérgio Ribeiro, a principal dica para manter a organização do espaço de bicicletas é a divulgação de um manual de uso junto aos condôminos. Neste documento, que pode ser anexado ao regimento interno do condomínio, é importante deixar claro que o condomínio não se responsabiliza por quaisquer danos que venham a ocorrer às bicicletas no espaço. Salientando também que o descumprimento das regras ali contidas poderá acarretar advertência e multa ao condômino responsável.

É imprescindível também que os empregados do condomínio sejam orientados sobre como cuidar da área. Se for o caso, eles devem guardar as chaves do recinto e auxiliar os moradores na hora da retirada das bicicletas. No condomínio Rose, por exemplo, Fábio da Silva já solicitou que seus faxineiros varram a área com regularidade e evitem o acúmulo de poeira embaixo dos veículos. “Isso é crucial para manter o ar de organização e limpeza da área”, comenta.

Segurança, acima de tudo
Quanto mais apaixonado o condômino for por ciclismo, maior será o investimento na hora de adquirir uma bicicleta. Alguns modelos podem custar até 20 mil reais. Por isso, ainda que o condomínio se esquive da responsabilidade sobre danos que ocorram no bicicletário, é sempre prudente adotar algumas medidas de segurança. Câmeras de segurança para filmar o movimento no local são essenciais, não só por inibirem atos de furto e vandalismo como também por permitirem a identificação do causador do dano ao veículo quando este ocorrer.

Na hora de construir o espaço, o síndico deve optar por alocá-lo o mais próximo possível da entrada do condomínio, assim tanto funcionários como condôminos poderão visualizar facilmente o que acontece ali. Os especialistas sugerem também que o síndico sinalize, com cartazes ou placas, que o local é destinado exclusivamente ao estacionamento de bicicletas e demarque a área com pintura, muretas ou cercas, para que ela não seja invadida por carros ou motocicletas.

O gestor deve estar atento também às intempéries climáticas, já que o sol excessivo ou chuvas recorrentes podem danificar os equipamentos. O ideal é então colocar algum tipo de cobertura, ainda que simples, no espaço. O síndico Fábio da Silva já está providenciando esse item para o bicicletário do condomínio Rose, no Recreio. “O nosso bicicletário ainda não foi inaugurado justamente porque quero algo para cobri-lo. Uma parte dele, cerca de60 cm, fica ao ar livre e pretendo colocar telhas ou uma tenda ali para dar mais proteção aos veículos”, antecipa.

Todas essas medidas de segurança permitem ao bicicletário cumprir seu papel principal, que é o de promover ainda mais bem-estar a todos no condomínio. “Comprovei na prática que o bicicletário estimula as pessoas a adquirirem uma bicicleta. Noutro dia, eu desci e vi várias bikes penduradas no nosso espaço e olha que ele ainda nem foi inaugurado oficialmente. Ou seja, havia uma demanda reprimida aqui no prédio. Às vezes, a pessoa até gosta do esporte, mas mora em apartamento e não quer ou não tem espaço para colocar uma bicicleta em sua unidade. Se o condomínio disponibiliza um lugar para isso, os condôminos aproveitam. O bicicletário mantém os veículos organizados, arrumados”, destaca Fábio da Silva.

Para o síndico Sérgio Ribeiro, o próprio condomínio lucra com iniciativas como essa. “Acho importante os condomínios antigos irem se adaptando, na medida do possível, aos novos hábitos e tecnologias que estão chegando e mudando cada vez mais rápido. Os bicicletários são apenas um exemplo dessas mudanças, que promovem não só a saúde e o bem estar dos moradores, como influem na própria valorização do imóvel”.

 

Texto: Aline Duraes
Foto: Marco Fernandes