Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2013

Proteção invisível

Saiba quais são as vantagens e desvantagens de optar por grades de vidros nos condomínios Continue lendo

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Quem caminhava pelas ruas do Rio de Janeiro na década de 1970 desfrutava de um bom espaço na calçada, já que a maioria dos edifícios ainda não tinha aderido às grades. No final dos anos 80, as estruturas de ferro viraram uma verdadeira febre, desencadeada na orla da Zona Sul carioca. Por toda a cidade, prédios se cercavam de gradis, motivados pela premissa de mais segurança. Apesar de mostrar-se eficaz no que diz respeito ao bem-estar do morador, é consenso que a grade não beneficia a beleza e a estética da cidade maravilhosa, tanto que, de cinco anos para cá, um novo movimento tomou conta dos condomínios: as paredes ou grades de vidro.

Na orla das praias e em áreas predominantemente residenciais, é comum ver prédios cercados pelos chamados vidros temperados – e não blindados, como se costuma pensar. Em alguns casos, eles também estão intercalados com grades de alumínio. Podem ser transparentes, esverdeados e até mesmo ter uma proteção fumê. Alguns ainda possuem mecanismos eficientes quanto à regulação da temperatura. A medida é padrão: cerca de2,3 metrosde altura e espessura de8 milímetros. O vidro temperado possui ainda outra vantagem. Caso quebre, se divide em micro-pedaços pouco cortantes.

Boa parte dos especialistas e dos condomínios que já aderiram concordam que ele garante um visual mais limpo e o edifício torna-se mais integrado à paisagem da cidade, no entanto, ainda há especulações sobre a segurança, pois, à primeira vista, o material parece mais frágil.

O arquiteto e presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, Sydnei Menezes, garante que o vidro é bem resistente e continua cumprindo a barreira de segurança: “Do ponto de vista estético, ele é muito menos agressivo do que a grade de ferro, e mantém a segurança. Quanto à fragilidade, não acho que seja um problema. O material é extremamente resistente e quebrar um vidro deliberadamente já constitui um ato grave de vandalismo ou crime que chama muita atenção, é como acontece nas vitrines das lojas”, diz ele, que completa: “Até hoje, nunca recebemos nenhum chamado quanto a vidros quebrados em edifícios residenciais. E a grande maioria dos novos empreendimentos está optando pelos vidros. O prédio fica muito mais integrado.”

Fernando Estrada, síndico do Condomínio Étage Botafogo, decidiu colocar vidros no prédio de 70 unidades em fevereiro deste ano. “A opção foi totalmente estética, pois potencializa a visão do jardim. Para instalar o vidro, fizemos uma Assembleia e solicitamos diversos orçamentos. Aprovamos um deles, na época a R$ 50 mil, que foram pagos com cota extra. O valor foi alto, pois temos cerca de30 metrosde fachada, mas os moradores entendem que é por segurança e colaboraram bem”, explica ele.

O Condomínio do Edifício Acará, que conta com sete unidades, nunca teve gradis de qualquer material. Durante oito meses, o síndico Marco Túlio tentou aprovar o projeto na Assembleia, até que todos chegaram a um consenso: placas de vidro, que foram colocadas em fevereiro deste ano. “Nosso prédio está localizado bem próximo às praias de Copacabana e Arpoador. Sempre sofríamos em dias de grandes eventos, por isso, precisávamos de mais segurança. E além de ser mais leve e resistente à corrosão da maresia, o vidro é adequado ao espaço em que vivemos”, opina.

No entanto, antes de decidir pela colocação de proteção de qualquer tipo, todos os edifícios precisam de uma autorização da Subprefeitura local, para que o espaço do gradil não comprometa a área de circulação pública. Segundo Naielen Silva, supervisora administrativa da rede Marfra – especializada em projetos do tipo, o processo muitas vezes pode ser demorado. “Tivemos um prédio na Tijuca que conseguiu a autorização em apenas três meses. Já outro na Lagoa espera há dois anos. É muito relativo. Depende da região em que o edifício está localizado”, explica ela, que também relata um aumento do número de pedidos: “recebemos muitas ligações de condomínios interessados. É uma tendência que cresce bastante e bem rápido”, conta.

O Condomínio Villmont também aderiu à moda. O síndico Evandro dos Santos Forny trocou grades de ferro pelo vidro em janeiro deste ano e a principal motivação também foi a segurança. Para tal, foi preciso uma cota extra na taxa mensal. “No jardim do prédio há uma pedra de mármore que virava abrigo de moradores de rua. Com os vidros, o problema acabou e o controle de segurança é maior, já que o porteiro precisa liberar a entrada mais de uma vez”, comenta ele, que também alerta para o fato de vários edifícios ao redor do seu estarem copiando a ideia.

Outra questão quanto ao material é o preço. Naielen Silva admite que optar por vidros significa gastar um pouco mais. “Ele é cerca de 20% a 25% mais caro do que a grade normal, no entanto, o efeito visual é muito melhor. A manutenção também é bem prática e pode ser feita com água e sabão comuns. Por enquanto, não tivemos solicitações de troca.”

O arquiteto Fernando Klem, da Prime Lafem Engenharia, afirma que prefere o vidro a grades de ferro, mas chama a atenção para alguns detalhes: “temos sempre que analisar o contexto que ele está sendo empregado. Em construções muito antigas, o vidro liso pode não agradar ao conjunto arquitetônico. É também importante estar atento à qualidade do material, pois o vidro de baixa qualidade tende a ter uma vida útil menor”, diz.

Já na opinião do arquiteto Alfredo Britto, o ideal seria que os gradis fossem totalmente extintos. Enquanto a insegurança não permite isso, o vidro passa a ser uma alternativa menos agressiva aos olhos: “a grade denuncia uma sociedade aprisionada. Acredito que o vidro seja um passo para o amadurecimento de todos, para que um dia possamos retirar tudo e viver sem essas divisões”, sentencia.

 

Antes de optar pelo vidro, fique atento a algumas recomendações de especialistas:

> Escolha um material de maior qualidade e resistência para aumentar a vida útil da grade;

> Sempre comunique os moradores com antecedência em Assembleia;

> Faça um orçamento com mais de uma empresa;

> Peça autorização à Subprefeitura local antes de colocar;

> Analise os aspectos arquitetônicos de seu condomínio antes de escolher o material.

 

Texto: Mário Camelo
Foto: Marco Fernandes