Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2013

Condomínios verdes

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A palavra sustentabilidade já está inserida há anos em diversos contextos da sociedade contemporânea. Preservar o planeta é uma missão e também um grande desafio para a atual e para as próximas gerações. Com os condomínios, não é diferente. Utilizar materiais recicláveis nas construções, evitar o consumo desnecessário de água e energia, implantar a coleta seletiva… Ações como estas parecem pequenas, mas a longo prazo podem fazer toda a diferença ao meio ambiente, se aplicadas nos edifícios.

Sustentabilidade em prédios não envolve infraestrutura moderna, mudanças drásticas e equipamentos complexos. Um condomínio verde é aquele capaz de proporcionar benefícios na forma de conforto, funcionalidade, satisfação e qualidade de vida sem comprometer a infraestrutura presente e futura dos insumos, gerando o mínimo possível de impacto no meio ambiente e alcançando o máximo possível de autonomia. Uma pesquisa recente da Civil Engineering Research Foundation (CERF), entidade ligada ao American Society of Civil Engineers (ASCE) dos Estados Unidos, mostrou que a construção civil é o setor que mais polui o planeta. De acordo com o estudo, os novos prédios são responsáveis pelo desmatamento de 66% das árvores do mundo e pela extração de 50% dos recursos naturais. No Brasil, o consumo de agregados naturais somente na produção de concreto e argamassas é de surpreendentes 220 milhões de toneladas.

Outro grande problema gerado pelos prédios (novos ou antigos) é a poluição do ar e principalmente o lixo, que, em sua maioria, acaba indo para depósitos ou aterros sanitários. Um estudo encomendado pelo Ministério Público do Estado constatou que a coleta seletiva na cidade do Rio de Janeiro totaliza 30 toneladas de lixo por dia, enquanto a não seletiva chega a 4.310. “O estrago produzido pelos edifícios é grande, portanto, toda ação executada em condomínios visando à preservação do planeta já é valida”, diz a publicitária Regina Lagimestra, criadora da ONG Reviverde, que aplica a reciclagem do lixo em prédios.

A publicitária começou o trabalho há 12 anos, quando, por curiosidade, decidiu conhecer o sistema do duto coletor na garagem do seu edifício, o Condomínio Solar da Barra, de 143 unidades. “Fiquei chocada com o que eu vi. Comida, insetos, papelão, jornal, garrafas… Tudo misturado. Falei com o meu síndico e decidi fazer uma campanha entre os moradores para criarmos a primeira coleta seletiva. Ao final do mês, chamei um caminhão sucateiro e conseguimos comprar 11 cestas básicas com o dinheiro do lixo. Isso me deixou muito entusiasmada, tanto que decidi levar a ideia para outros lugares”, explica ela. Hoje, Regina já implantou o sistema de coleta seletiva em mais de 50 edifícios, comerciais ou residenciais, a maioria na Barra da Tijuca e Zona Sul da cidade, e acabou criando uma ONG para difundir os ideais da reciclagem.

Em 2010, ela quis fechar o duto do Solar da Barra para facilitar a coleta. Como não teve apoio do síndico, se candidatou à vaga. Hoje, administra o prédio, claro, com o duto fechado. “Acho que o meu condomínio tem que ser modelo”, salienta.

Pequenas atitudes
Síndico há três anos do condomínio Botafogo EasyWay, de 96 unidades, o analista de sistemas Renato Munhoz acredita que ter um edifício sustentável é apenas uma questão de mudança de hábitos. Quando ele assumiu o cargo, já havia coleta seletiva, mas suas ações de incentivo fizeram a quantidade de lixo aumentar cinco vezes. Hoje, quase uma tonelada por mês é arrecadada e o valor gerado é distribuído entre os funcionários da limpeza. Outro grande vilão, o óleo de cozinha usado, agora também é encaminhado para uma ONG que o transforma em sabão. Para se ter uma ideia, cada litro de óleo de cozinha tem capacidade de poluir cerca de 20 mil litros de água. “Além destas ações, também elaboramos metas para reduzir o consumo de energia elétrica. Na garagem do prédio, trocamos as lâmpadas comuns por LED e instalamos sensores de presença. Com isso, a conta caiu mais da metade. O consumo, que antes era de R$7.500, reduziu para cerca de R$2.500”, conta o síndico, que há quase dois anos não aumenta o valor da cota condominial.

No prédio, ainda são promovidos eventos ecológicos para as crianças e a compostagem com restos de comida ‑ o processo natural transforma o lixo orgânico em adubo, que é vendido ou aplicado no próprio jardim da propriedade. “Também incentivamos a prática de consumo sustentável entre os moradores. Comprei um carrinho de feira e algumas ecobags que ficam disponíveis na portaria para que as pessoas evitem usar as sacolinhas. Além disso, há endereços de feiras livres e mensagens de conscientização nos quadros de aviso”, relata Munhoz, que criou um blog para contar a experiência do edifício. Ele ainda pretende implantar um sistema de coleta de água da chuva e instalar hidrômetros individuais nos apartamentos: “Na última reunião com os condôminos a ideia não passou, mas vou provar que é vantajoso”, explica.

O Condomínio Étage Botafogo, administrado pela APSA, já possui um sistema de coleta da água da chuva: “os tanques de água de reuso foram implantados ainda na construção do edifício. Utilizamos a água para regar as plantas do jardim e das áreas comuns. É uma economia limpa e funcional”, explica ele, que também introduziu a coleta seletiva no prédio.

Ter tanques de reuso em novas construções já é lei em alguns estados do país. Apesar disso, a maioria dos prédios no Brasil possui um único sistema de distribuição de água. Desta forma, todos os condôminos dividem o valor da conta embutido na taxa mensal de manutenção. No entanto, especialistas atestam que individualizar o consumo é a melhor forma de reduzir os gastos e o desperdício.

A síndica do edifício Royal Barravaí, de 132 unidades, Paola Polezel, já faz coleta seletiva do lixo, mas quis implantar um outro sistema, popular em edifícios sustentáveis, a captação de energia eólica. Esbarrou em limitações. “O prédio já tem mais de 20 anos. É uma estrutura antiga e essas adaptações exigem muitas mudanças. Então, vai demorar mais um pouco”, conta.

Arquiteto e gerente de projetos da Sustentech – consultoria especializada em sustentabilidade na área da construção civil -, Henrique Benites diz que este é um dos principais problemas em edifícios antigos que procuram iniciativas verdes. “Há alguns anos nem se falava em sustentabilidade e estes prédios precisam de obras complexas para a instalação de um sistema de hidrômetros individuais ou captação de energia solar e eólica, por exemplo. O mercado verde começou a crescer a partir de 2005. Atualmente, a maior demanda é em edifícios novos, no entanto, também existe um movimento para trazer sustentabilidade a condomínios antigos”, afirma.

Segundo Benites, outras iniciativas são válidas, como trocar torneiras velhas por modelos com arejadores e optar por vasos sanitários que regulam a emissão de água da descarga (entre 3 e6 litros), de acordo com o dejeto. Colocar proteções externas nas janelas também é uma boa solução: “Em São Paulo isso é bem comum, mas no Rio nem tanto. Quando os raios solares batem no vidro, ele muda de frequência e acaba retendo o calor, que irradia por dentro do ambiente. É o chamado efeito estufa. As pessoas costumam usar venezianas para combatê-lo, mas o ideal é que a proteção seja colocada do lado de fora. Isso reduziria o uso de ventiladores e ar-condicionado”, diz.

Condomínios em áreas verdes
A necessidade de preservação é evidente, mas não apenas nas áreas urbanas. Condomínios localizados em regiões predominantemente verdes também já se mobilizam para poupar seu território. É o caso do Condomínio Fazenda Passaredo, considerado um dos pioneiros em preservação no Rio de Janeiro. Há cinco anos, os moradores se organizaram para criar o Centro de Meio Ambiente Wyb Hoek com a missão de preservar parte do bioma do Parque Estadual da Pedra Branca, localizado no entorno dos 340 lotes de1.700 metrosquadradosdo condomínio.

O trabalho já foi agraciado com prêmios do Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) e do Secovi Rio. “Moro aqui há mais de 20 anos e com a ascensão das grandes construções, surgiu a necessidade de um espaço de preservação”, explica uma das fundadoras do projeto, Aparecida França.  Entre as ações do espaço está a construção de um viveiro de mudas originais, que recuperou quatro mil metros quadrados de jardim; reaproveitamento da água da chuva; compostagem; coleta seletiva de lixo e de óleo de cozinha; uma horta orgânica experimental; construção de minhocário e até aulas para a alfabetização de adultos. O próprio prédio do Centro foi erguido com material já existente em um depósito. A experiência do condomínio virou um livro, escrito por Mônica Borobia Hoek, síndica na época.

“Há 16 anos, quando me mudei para cá, construí meu jardim com o descarte de plantas de outras unidades. As pessoas não entendiam, olhavam esquisito. Hoje, não há mais este preconceito”, conta Aparecida.

O condomínio Parque Beija-Flor III, de 306 unidades, passou por uma situação parecida. O síndico Edivaldo Pires Araújo realizou diversas campanhas e obras em prol da sustentabilidade e criou o Espaço Verde numa área onde foram retirados 40 caminhões de entulho para a plantação de mudas e ações de integração entre condôminos. “O mais bacana de tudo é a grande adesão dos moradores”, diz.

Um outro exemplo é o Espaço Itanhangá, centro comercial localizado junto à mata atlântica, na Barra da Tijuca. Há quatro anos o lugar investe em novas propostas e ideias que inclui movimentos eco arquitetônicos e sociais. Agora, estão em fase de implantação um programa de captação de água da chuva e a troca da iluminação da área externa por lâmpadas LED. “O prédio foi construído em 1970 já com a missão de ser um espaço alternativo para que as pessoas pudessem vivenciar a natureza. Essa preocupação tem atraído empresas que compartilham destas ideias a montarem escritórios aqui”, afirma a consultora de Marketing do condomínio, Helen Pomposelli.

Outras soluções
Medidas simples e inteligentes têm um bom custo-benefício. Entre as boas novidades, o barateamento dos materiais para a instalação de painéis solares e equipamentos de energia renovável. Outra solução que cresce a passos largos são os telhados verdes. A prática ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente por causa do clima tropical e das várias espécies diferentes que proporcionam uma bela vista pela janela dos prédios vizinhos.

A paisagista Beatriz de Santiago aponta ainda outro tópico: fachadas verdes que podem substituir reformas ou a limpeza de ferrugem e manchas com produtos químicos. Além de ser sustentável, a prática ainda evita o gasto com materiais caros como o mármore e o granito. “Traz mais verde para o edifício e é uma despesa que compensa bastante. Além disso, a manutenção é prática e necessária somente a cada quatro meses”, explica.

A Ilha Pura
Tida como o edifício mais sustentável já projetado no Rio de Janeiro, a Vila dos Atletas, que vai abrigar as delegações dos próximos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016, será erguida em um terreno de 206 mil metros quadrados, norteada por ideiais como sustentabilidade, mobilidade urbana, acessibilidade segurança, conforto e qualidade de vida. O projeto está inserido no bairro Ilha Pura, espaço urbano em desenvolvimento na Barra da Tijuca a partir de investimentos no porte de R$ 2 bilhões. Na Vila dos Atletas serão erguidos 31 prédios residenciais, divididos em sete condomínios, com 3.604 unidades, que terão capacidade para abrigar 17.950 atletas e paratletas, além de suas equipes.

As iniciativas aplicadas no projeto contemplam o recrutamento e capacitação da mão de obra do entorno, prioritariamente; preservação do bioma local; criação de centrais de concretagem; redução na geração e reuso dos resíduos; redução do impacto na utilização de recursos hídricos e energéticos; diminuição da emissão de gases de efeito estufa; e otimização da logística de entrega de materiais no canteiro de obras.

Segundo Carlos Fernando de Carvalho, o presidente da Carvalho Hosken, uma das construtoras responsáveis pelo empreendimento, o compromisso dos líderes das empresas envolvidas é transformar a Vila dos Atletas em um ícone mundial, sendo a de mais alto padrão da história dos Jogos Olímpicos. “Somos vizinhos do Parque Estadual da Pedra Branca, estamos em frente a uma lagoa e a cinco minutos da praia. A Ilha Pura contará com uma multiplicidade de facilidades que reunirão qualidade de vida, moradia, serviços e entretenimento”, conclui.

O fato de existirem projetos complexos como o da Ilha Pura não restringe a necessidade de iniciativas de preservação. Qualquer edifício pode ser sustentável. Há anos o planeta já dá sinais de cansaço e desgaste, portanto, mesmo que pequena, qualquer ação para preservar os recursos naturais é válida. Apesar de ser uma questão coletiva, a sustentabilidade nasce da consciência individual.

 

Dicas práticas para preservar o meio ambiente dentro de casa

1. Evite jogar comida fora;

2. Descarte o lixo corretamente;

3. Deixe o sol entrar para economizar energia durante o dia;

4. Utilize os recursos naturais racionalmente;

5. Cultive plantas dentro de casa;

6. Escolha móveis de madeira certificada, de reflorestamento ou de bambu;

7. Reutilize materiais e objetos que seriam descartados para outras funções;

8. Prefira os produtos de limpeza com baixa toxicidade e sem cloro.

 

Texto: Mário Camelo
Foto: Marco Fernandes