Rio de Janeiro, 9 de julho de 2013

Colheita urbana

Condomínios apostam em hortas coletivas para melhorar a qualidade da alimentação e até o relacionamento entre os moradores Continue lendo

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Foi se o tempo em que a praticidade de ir ao mercado ou à feira para comprar legumes e verduras já selecionados era considerado algo moderno e vantajoso. Hoje, a maioria das pessoas quer consumir orgânicos vindos diretamente da terra para a mesa. Além de um melhor sabor, esses alimentos estão livres dos agrotóxicos e outros produtos químicos que podem afetar a saúde de quem os consome.

De acordo com a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), os agrotóxicos que apresentam alto risco para a saúde da população são utilizados, no Brasil, sem levar em consideração a existência ou não de autorização do Governo Federal. Esta é uma constatação do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), divulgados este ano. Já o Ministério da Saúde aponta que a segunda maior causa de intoxicação no país depois de medicamentos é por agrotóxicos.

Está enganado quem pensa que é preciso morar no campo para se dar ao luxo de consumir alimentos diretamente vindos do quintal. Em grandes centros urbanos, condomínios residenciais já investem em suas hortas. Além de melhorar a alimentação dos moradores, os espaços se tornam atrações que ajudam inclusive no melhor relacionamento entre os vizinhos.

No Condomínio Cores da Lapa, a ideia de se fazer uma pequena horta comunitária surgiu há um ano quase que por acaso. Depois que as raízes das plantas de um jardim com cerca de oito metros quadrados na área de lazer começaram a causar infiltrações no teto da garagem, no primeiro andar, houve a necessidade de mudar as espécies. Foi aí que o síndico, Nino Cirillo, resolveu colocar plantas que pudessem ser usadas como tempero ou acompanhamento para churrascos – já que o espaço fica ao lado de duas churrasqueiras.

A horta conta com alecrim, manjericão, pimenta-dedo-de-moça e gengibre. “O gasto inicial ficou em torno de R$ 300 com sementes e adubo. A partir daí, a manutenção passou a ser feita pela equipe de jardinagem do condomínio, sem nenhum acréscimo no valor pago à empresa”, conta Cirillo.

Além dos churrascos, moradores começaram a recorrer à horta na hora de preparar os pratos dentro de suas casas. Não foi criada nenhuma regra com relação à quantidade que cada morador pode recolher. O síndico optou pelo bom senso: “fizemos uma reunião e explicamos que é um benefício para todos e que, por isso, todos devem zelar por ele. Alguns cuidados são básicos, como esperar a hora ideal para colheita e sempre ter muita delicadeza para não danificar as outras plantas”, explica.

Delegar responsabilidades pode ser boa opção

O Condomínio Vale de Itaipú, em Niterói, tem a sua horta coletiva há dez anos. A área é ampla, com cerca de 180 metros quadrados, e dividida em setores de verduras, legumes, ervas medicinais e temperos. Uma comissão formada por moradores é responsável por fiscalizar a manutenção do espaço – feita por um funcionário contratado exclusivamente para a função – além de organizar quadros e reuniões explicativas. “Eu me reúno todos os meses com a comissão para discutirmos com andam os cuidados com o espaço. Também temos um minhocário para a produção de húmus e uma composteira para fazer adubo”, conta a síndica, Karina de Vasconcelos.

Segundo ela, a horta se tornou um meio para maior integração entre os vizinhos. É comum, por exemplo, algum morador doar sementes ou mudas de uma espécie que ainda não tenha no espaço. Sempre que isso acontece, é colocada uma placa com os nomes da planta e de quem fez a doação. Não há regras para a colheita, apenas é pedido que seja respeitada a época ideal. Apesar disso, a síndica ressalta que em uma década nunca houve um problema sequer envolvendo a horta. “Nosso único gasto atual é com o funcionário. A horta é autossustentável, já que produzimos os adubos e os moradores estão sempre ajudando. Acho que qualquer condomínio que tenha condições e espaço, não pode deixar de ter uma”, frisa.

Antes de iniciar uma horta, no entanto, é importante planejar como será a manutenção do espaço. O síndico do Condomínio Botafogo Easyway, Renato Moreno Munhoz, aprendeu a lição na prática. O projeto da horta no condomínio surgiu há um ano num espaço de 10 metros quadrados. Foram plantados temperos, como manjericão, alecrim e coentro. A ideia foi fazer uma experiência para, em seguida, iniciar uma horta maior em outro espaço, com cerca de 100 metros quadrados, onde serão cultivados legumes e verduras. “Com um ano na horta menor, percebemos alguns problemas na execução do projeto, como solo e adubação inadequados. Até conseguimos fazer uma colheita, mas não da forma que esperávamos. Agora estamos discutindo os pontos em que erramos para em breve iniciar a horta maior”, explica Renato.

DEZ DICAS PARA FAZER UMA HORTA

A paisagista Beatriz de Santiago tem uma ampla experiência na elaboração de hortas para condomínios. Ela listou algumas dicas para o síndico que pretende iniciar uma:

1 – É importante que o espaço escolhido tenha a incidência de sol durante o ano inteiro, por pelo menos quatro horas diárias.

2 – A horta também pode ser de forma vertical, caso não tenha espaço suficiente para fazer canteiros, ou em jardineiras.

3 – Na preparação do solo, o indicado é usar adubo orgânico, que pode ser feito com a compostagem ou comprado em lojas especializadas.

4 – A manutenção deve ser realizada semanalmente ou quinzenalmente, dependendo do tamanho da horta.

5 – Deve ser feita uma boa drenagem para não acumular água no solo. Inicialmente, deve ser colocada a manta bidim, depois pedrinhas ou argila expandida. Em seguida, a terra adubada. É importante proteger a terra com uma forração que pode ser de casca de árvore tratada.

6 – A horta deve ser regada diariamente em dias com temperaturas amenas e duas vezes em dias mais quentes.

7 – Pode-se fazer uma horta com um orçamento a partir de R$ 200 ou até R$ 5 mil, caso a ideia seja algo mais sofisticado.

8 – Para uma horta em prédios, é interessante cultivar temperos como, manjericão, alecrim, hortelã, orégano, salvia e coentro. Todas elas podem ser utilizadas em pratos na cozinha e a colheita é feita de maneira simples e rápida.

9 – Para aqueles que dispõem de um espaço maior, boas opções de cultivo são o feijão, vagem, chicória, alface e tomate.

10 – As mudas devem ser colocadas de preferência em conjunto por espécies.

 

Texto: Gabriel Menezes