Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2013

Chuva de economia

Reaproveitando água da chuva, você une sustentabilidade e economia em uma só prática. O meio ambiente agradece, e as finanças do condomínio também. Continue lendo

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O verão está aí e, com ele, chegam também as tardes chuvosas. Quem nunca foi surpreendido por uma tempestade repentina depois de um dia inteiro de sol? Mas a chuva de verão não serve apenas para amenizar a sensação de calor que marca a estação. Para o gestor sustentável, que sabe como reutilizar a água proveniente da precipitação, ela serve também para promover uma economia considerável nos gastos do condomínio.

Pesquisas mostram que a conta de água representa cerca de 15% dos custos em um condomínio, o que faz dela a segunda maior despesa, perdendo apenas para a folha de pagamento de funcionários. Para se ter uma ideia, um condomínio padrão, com 64 unidades, dois elevadores e seis funcionários, gasta, em média, R$ 4,5 mil por mês com água.

Em realidades como essa, reaproveitar a água da chuva pode ser uma saída bem interessante. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostrou que a economia mensal proporcionada por sistemas de reuso de água pode chegar a 70%.

Atento a isso, o síndico Ascânio Cavalcanti implantou, há dois anos, a reutilização da água de chuva no Vivendas de Ipanema, condomínio com 32 unidades, localizado na Zona Sul do Rio. “Os fundos de nosso prédio dão para o Maciço do Cantagalo, um enorme morro de pedra com uma florestaem cima. Quandochovia, a gente percebia que a água caía com força dessa pedra para a laje da nossa cobertura. Resolvemos então fazer algo a respeito”, conta.

Com uma ideia na cabeça e muita boa vontade, Ascânio começou a idealizar o sistema de reutilização. Alocou duas caixas com capacidade para 2,5 mil litros cada na parte de trás do Vivendas e um cano que transporta a água para as caixas. Por meio de uma tubulação, ligou os vasilhames ao tanque da garagem e, hoje, seus funcionários utilizam a água da chuva para lavar carros, calçadas, a garagem e regar o jardim.

Todo o sistema, construído com parte do fundo de reserva do condomínio, demorou menos de um mês para ficar pronto. “Como a tubulação só vai até um tanque da garagem, a obra foi barata. Isso foi opção nossa. Se fôssemos levar a água para as demais áreas comuns do edifício, precisaríamos fazer uma obra maior, furar paredes. Como não queríamos onerar os condôminos, optamos por uma obra menor, sem qualquer cobrança extra para os moradores”, explica Ascânio.

A água nunca falta. Mesmo nos períodos em que a chuva não é tão constante, as caixas continuam cheias e atendem às necessidades do condomínio. “As caixas nunca ficaram vazias. Qualquer chuva as enche. Temos reserva de 5 mil litros de água. É muita coisa. Demora muito para esvaziar, até porque não usamos a água com tanta frequência. Além disso, quando os porteiros precisam lavar carros ou calçadas, usam baldes e não mangueira. Por isso, temos sempre água armazenada”.

Faça você também
Reaproveitar a água da chuva é mais fácil – e barato – do que parece. E a boa notícia é que já existe no mercado uma série de empresas com know-how para tornar o seu condomínio mais sustentável e econômico.

Jonas Brito é responsável por uma empresa que, há dois anos, constrói equipamentos para o uso racional de águaem condomínios. Acompanhia trabalha tanto com o reuso de água do próprio edifício quanto com o reaproveitamento da água de chuva. Jonas explica que o segundo processo é mais simples e exige poucas alterações na estrutura da unidade. “No reuso, o prédio tem que ser concebido para esta finalidade; uma adaptação exigiria quebrar todos os banheiros, o que é impossível em condomínios já habitados. O mais indicado, então, é optar pelo sistema de aproveitamento da chuva, que necessita apenas de caixas de água exclusivas, tanto no subsolo quanto na cobertura. Caixas essas de polipropileno ou fibra de vidro que são facilmente encontradas no mercado”, argumenta.

Além das caixas, Jonas pontua que o ideal é instalar um filtro de areia ou um dispositivo de descarte da primeira chuva, no subsolo ou térreo da unidade. Esses equipamentos serão responsáveis em limpar a água e torná-la mais adequada ao uso. “Mesmo se a água for utilizada para fins simples, como regar plantas ou lavar de pisos, ela precisa ser tratada. Você pode escolher o tratamento que descarta a primeira chuva e aproveita as demais ou o sistema de filtragem com filtros de areia. Ambos os métodos desinfetam a água, evitando o mau cheiro e o risco de contaminação dos usuários”, narra.

Adaptações desse tipo duram menos de uma semana para serem concluídas e não exigem a interrupção do fornecimento de água para os demais condôminos. Já o preço do sistema varia principalmente de acordo com a área drenada. De acordo com alguns levantamentos no mercado, projeto, materiais e mão-de-obra para instalação compõem um pacote, e o seu valor pode chegar a R$ 20 mil.

O montante gasto por Ascânio Cavalcanti na construção do sistema de aproveitamento da chuva do Vivendas de Ipanema não chegou a tanto. Isso porque o síndico dispensou qualquer empresa para montar o projeto. Tudo foi feito pelo bombeiro hidráulico do prédio, com a ajuda e a supervisão de um grupo de condôminos bastante engajado na iniciativa. “O trabalho aqui foiem equipe. Algunsmoradores são engenheiros, outros são donos de loja. Então, a gente se reuniu e cada um contribuiu com o que podia. Nosso bombeiro, que também é marceneiro, fez um projeto e construiu a estrutura de madeira maciça sobre a qual estão as caixas de água. O condomínio só arcou com a compra das duas caixas e com a mão-de-obra do bombeiro. Demorou menos de um mês para a instalação, que não causou nenhum tipo de transtorno aos condôminos. Como as caixas ficam na parte de trás do prédio, nem mesmo a parte estética ficou comprometida. Todos estão muito satisfeitos”, diz.

Cuidados indispensáveis
Apesar de simples, o sistema de reaproveitamento da chuva requer manutenção periódica, para evitar perigos comuns ao verão brasileiro, como a dengue, por exemplo. O ideal é que as caixas que captam a água tenham tampas e fiquem vedadas durante todo o tempo. Além disso, os vasilhames devem ser limpos a cada seis meses, ação que impede o acúmulo de limo e resíduos e a possível contaminação da água. “Nosso bombeiro vistoria as caixas também para verificar se existe alguma rachadura que facilite o vazamento da água”, salienta Ascânio Cavalcanti.

Já os filtros de limpeza precisam passar por uma lavagem periódica para retirar o excesso de impurezas. A lavagem é simples e pode ser realizada pelos próprios funcionários do condomínio, de duas a quatro vezes por mês.

Gestão Sustentável
Sustentabilidade é a palavra da vez. Empresas, grandes organizações e governos do mundo inteiro estão preocupados em adotar medidas de aproveitamento dos bens naturais sem comprometimento do meio ambiente. Essa preocupação também paira sobre alguns condomínios, em especial quando o assunto é a água. E não é para menos: além de ser cara, a água está em vias de escassez.

Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), até2050, ademanda mundial pelo líquido será 55% maior. A previsão é que, nesse ano, 2,3 bilhões de pessoas, ou seja, mais de 40% da população mundial, não tenham acesso à água.

Diante de dados tão alarmantes, evitar o desperdício se torna quase que uma obrigação da cidadania. Além de reaproveitar as águas da chuva, os condomínios podem tomar outras medidas bem simples para frear o consumo desnecessário de água. O gestor, por exemplo, pode afixar, de tempos em tempos, avisos nos elevadores pedindo que os condôminos verifiquem se suas unidades não estão com vazamento. É interessante também que, duas vezes ao ano, cada apartamento passe por uma vistoria para a checagem das tubulações.

Outra dica é orientar os condôminos a fechar o registro cada vez que a descarga do banheiro disparar ou mostrar sinais de defeito. “Para todas essas medidas funcionarem, as pessoas precisam ter consciência e ser participativas. Já o síndico deve estar antenado o tempo todo. Porque, se descuidar, o desperdício vai longe. Com a economia de água, você preserva o meio ambiente e o seu bolso”, finaliza Ascânio Cavalcanti.

 

Texto: Aline Duraes
Foto: Marco Fernandes